terça-feira, 24 de novembro de 2009

Democracia é o Direito da Pluralidade


A visita de Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil causou mais repercussão do que eu imaginava. Não porque foi a visita ao país de um líder ultraconservador de uma república muçulmana, mas pela agressividade da mídia em relação à visita do presidente do Irã. Pareceu que o Brasil tinha declarado guerra ao mundo junto ao novo "eixo do mal" que agora inclui até Zelaya juntamente com Chavez, Mahmoud e Kim Jong-il. Dos EUA até a Inglaterra, Lula foi criticado por receber em Brasília o presidente iraniano. Mas por quê tanta hostilidade a um encontro diplomático? Como sabemos, o Irã é um país politicamente conservador. Não é mentira que há uma verdadeira perseguição política e religiosa dentro do país, indo desde opositores do governo até crentes bahá'ís. O governo do Irã vive um período de tensão interna e externa que vem de décadas, cujos aliceres estão consolidados desde motivos políticos até a influência da cultura muçulmana no país. República Islâmica do Irã. Esse termo, uma denominação política do sistema social vivido no país, representa não só um território de uma parte do mundo, assim como a ideologia de uma sociedade. Mas o que esse polêmico país tem haver com a política dos EUA, da Venezuela e do Brasil?

Antes de tudo, devemos ter em mente que há 30 anos ocorria um fato que repercutiria até hoje no mundo ocidental: A Revolução Iraniana. Muitas vezes colocada como um retrocesso ao país, a reforma política implementada pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini foi uma tentativa de barrar o devastador imperalismo americano que estava de olho na produção petroleira do Oriente Médio. Com isso, os EUA não só desejavam o petróleo Iraniano e de seus países vizinhos como também implementar uma transformação cultural para concretizar esse desejo. A ideia inicial era blindar tanto o Irã como o Oriente Médio para evitar não só a exploração americana como também uma deformação da milenar cultura muçulmana na região. De fato, a ideia era louvável, entretanto o movimento tomou proporções trágicas com o início da guerra Irã x Iraque, uma vez que planejando infiltrar-se em terreno petroleiro, a ideia era dividir o terreno inimigo entre eles próprios. Na época o então presidente americano era seu Ronald Reagan, que já colocava em prática o projeto da implantação do neoliberalismo no mundo com o domínio de territórios produtores de petróleo. A ambição em garantir o monopólio das empresas petroleiras ocidentais era tanto que mais tarde na guerra do Kuwait, o atacado seria o Iraque, antes financiado pelos EUA para conquistar o território iraniano.

A razão do Irã ter se tornado um país politicamente conservador vem do fato de ao verem a cultura islâmica ameaçada pela investida dos EUA para ocidentalizar o país, que na época da Revolução possuía um regime monárquico pró-ocidente liderado pelo Xá Reza Pahlavi, os líderes muçulmanos passaram cada vez mais a interferir na política como uma forma de evitar uma perda da cultura muçulmana, tão enraizada no país. Com a Guerra, foi criado um conselho de líderes religiosos, estes, os verdadeiros governantes do país, que viram na religião Islâmica, uma maneira de guiar a sociedade, que na época via-se tão acuada diante das investidas americanas. Com isso, criou-se uma cultura baseada na valorização dos princípios islâmicos. Com essa tentativa de proteger a cultura nacional, criou-se um clima de hostilidade à cultura estrangeira tanto dentro quanto fora do Irã. Desse modo com esse clima de tensão cultural e política, qualquer cultura não-islâmica passou a ser combatida pelo governo. Desse modo, baháís, cristãos e judeus passaram a ser reprimidos no campo religioso. Homossexuais e outros grupos tidos como contrários ao sistema social muçulmano passaram a ser perseguidos na sociedade. E opositores políticos passaram a ser perseguidos pelo o governo que desde a época da Revolução passou a viver acoado com o temor do país perder sua identidade com uma deformação do modo de viver iraniano. Assim, no campo internacional, vários países ocidentais ditos "democráticos" passam a executar uma contra-campanha às atitudes internas e externas do Irã de modo a criar uma imagem deturpada da realidade, onde o opressor é o Irã e países de cultura islâmica em geral.

Essa atitude cria uma situação muito delicada, pois desde os ataques do 11 de Setembro, as nações muçulmanas assim como a cultura islâmica vêm sendo utilizadas como o bode expiatório da vez, sendo elas as responsáveis pelos conflitos ao redor do mundo. Em contrapartida, temos a omissão por parte da sociedade ocidental dos inúmeros crimes cometidos não só pelos EUA, mas pela OTAN e aliados desde a guerra do Irã x Iraque, a ponto de criar um estado de tensão tão grande nos países do Oriente Médio, que até hoje eles estão em clima de guerra civil. Clima esse que continua pelo simples fato dos EUA ainda não terem conseguido atingir seu fim: dominar o petróleo mundial. Essa incalculável busca de recursos econômicos é tão grande que é notável a divisão no Oriente Médio. Países como os Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Barein e tantos outros são a porta de entrada das potências ocidentais no Oriente Médio. Curiosamente todos são governados por sistemas monárquicos, assim como o Irã na época da Revolução. Isso nos mostra algo muito interessante. Sendo uma monarquia, a autoridade executiva e legislativa fica totalmente concentrada nas mãos do monarca, de modo que a possibilidade de uma intervenção estrangeira no país torna-se muito mais fácil quando um parlamento não tem poder sobre as decisões internas. Desse modo fica muito mais fácil os países ocidentais fazerem acordos com esses países do Oriente Médio. E é justamente essa a ideia dos EUA, que ao vulnerabilizar a autonomia desses países, as negociações tornam-se uma mera reunião entre empresários e os representantes desses países, tornando-se uma troca de favores onde uma mão lavará a outra. Com isso, esses países viram a imagem cuspida do ocidente com seu alto desenvolvimento social, e com isso contribuindo para que eles tornem-se "modelos" de desenvolvimento para os demais da região. Por isso esses países parecem uma ilha européia, pois com acordos com os países ocidentais, eles tornam-se verdadeiros balneários para a elite mundial fazer o que bem quiser com o dinheiro vindo do petróleo deles. Com isso, esses países crescem economicamente por meio do investimento ocidental assim como se tornam a ponte para o maior terreno petroleiro do mundo tão invejado pelos EUA: O Irã.

E como vemos, justamente por querer dominar o petróleo mundial, qualquer país que não coopere para esse neo-imperialismo americano é taxado de "inimigo do mundo", como aconteceu com o Irã, Venezuela e tantos outros. Com isso, unimos todos esses fatos para culminarmos nos dias atuais. A razão de toda essa repercussão negativa da visita de Ahmadinejad ao Brasil, deve-se primeiramente ao fato do Brasil estar tendo muita aproximação com países ditos do novo "eixo do mal" como a Venezuela, esta, grande produtora petroleira, que ao ver-se encurralada pelos EUA, com o desejo de conquistar o seu petróleo, passou a criar uma forte oposição na América Latina ao neo-imperalismo americano juntamente com Bolívia e Equador. Curiosamente, após uma onda de presidentes neo-liberais como seu Pinochet, FHC, Menem e tantos outros, a ponto desses países sofrerem fortes crises econômicas devido à implantação da doutrina neo-liberal, hoje, temos uma inversão no espectro político latino-americano, onde em suma, os presidentes são mais voltados para uma Economia de Estado. Atualmente essa política latino-americana tem como protagonistas Hugo Chavez, Evo Morales, Rafael Correa e Lula. Unindo tudo isso com uma maior aproximação desses países com os ditos "inimigos dos EUA" como Irã e Coreia do Norte, faz com que crie-se um clima de tensão na América Latina como vimos ultimamente com o golpe em Honduras.

Com isso, as potências ocidentais vendo-se acoadas com a mudança dos planos econômicos projetados para os anos futuros por países em ascensão, passam a tomar medidas radicais a ponto de mobilizarem uma campanha mundial contra esses Estados, indo desde críticas políticas até invasões e golpes. Assim, vendo o Brasil cada vez mais tornando-se economicamente independente somando isso com a maior aproximação de países que blindam-se contra essa investida imperialista, o Brasil passa de aliado à inimigo dos países ocidentais. Por isso temos essa repercussão tão negativa na mídia ocidental, mídia essa que é controlada pelos mesmos. Se no Irã há um governo tão repressor como a mídia ocidental nos mostra, esse é tão lamentável quanto a repressão oculta que os países ocidentais praticam, pois se o Irã persegue seus cidadãos, as potências ocidentais perseguem qualquer cidadão do mundo que for contra o sistema planejado por eles. Com isso temos vários conflitos ao redor do mundo, esses, proporcionados pelo desejo desses países de obterem lucro por meio do controle do mercado do petróleo. Todo mundo fala dos ataques "terroristas" por homens bombas, mas ninguém fala dos crimes americanos cometidos nesses países. É muito fácil acusar um país do Oriente Médio de inimigo do mundo, ainda mais quando se usa a religião como fator de manipulação, uma vez que em toda notícia de ataque terrorista, friza-se a afirmação do grupo como islâmico, entretanto não como um fato político, mas religioso. Desse modo, a sociedade ocidental, tendo o Cristianismo enraizado em todos os pontos da mesma, incluindo a política, passa a combater não só a cultura islâmica, mas também a sociedade islâmica, de modo que a guerra passa a ser justificada não mais com uma razão política, mas também religiosa, como foi feito nos EUA durante a invasão do Afeganistão. Uma "guerra contra o terror" que apenas vemos na mídia, que sendo controlada descaradamente pelos países ocidentais, só mostrará um lado da moeda. Assim, as potências ocidentais se mascaram de Estados Democráticos quando na verdade, são elas que estão por trás dos conflitos do mundo.

Com isso chegamos ao questionamento: Finalmente, o que é Democracia? Porque, se engolirmos o conceito americano de Democracia, temos uma bela conclusão: Democracia é política que está de acordo com a nossa. Desse modo, a Venezuela não seria politicamente um país democrático, Honduras não seria um país democrático, e a partir do momento em que o Brasil não compactuasse com as políticas propostas pelos EUA, também não seria um país democrático. Sobre a questão da Venezuela, devemos lembrar que todo o processo de eleição de Hugo Chavez assim como a modificação da constituição no fim da década de 90 foi feito totalmente segundo os processos legais, obedecendo todas as diretrizes da Constituição, assim como Zelaya em Honduras (para mais informações ler o texto do blog sobre Zelaya). Entretanto ninguém se lembra que em 2002 os EUA, com o então presidente George Bush, tentou dar um golpe na Venezuela para destituir Hugo Chavez e assim assumir o controle das jazidas de petróleo do país. Curiosamente, nessa época, os EUA encabeçavam uma campanha contra países também petroleiros como o Iraque, que com a invasão e ocupação do território afegão, chegaria facilmente ao Irã. Enfim, o que conhecemos como "democracia", nada mais é do que um engodo definido pelos EUA para ele próprio dizer quem está ou não com ele, e assim reforçar sua campanha contra esses países "inimigos" por meio dessa ideia de liberdade pela democracia. Assim, qualquer país que vá contra a "liberdade" proposta pelos EUA será considerado antidemocrático, e qualquer país que tenha relações com eles, também será considerado aliado desses países antidemocráticos.

Aí entra o Brasil, que nessa semana recebeu o presidente do Irã, um país que eu particularmente não considero democrático, mas como foi visto, existe uma "razão" para essa situação. Entretanto para a comunidade internacional, esse ato diplomático do Brasil representou um rompimento da tradição democrática do país, de modo que em apenas alguns dias, o Brasil transformou-se de um exemplo de política internacional em um "traidor da democracia". Agora eu pergunto: O fato do Brasil criar relações com países ditos antidemocráticos o torna compactuante da política feita nesses países? O mais absurdo nisso é que essas potências que se dizem democráticas querem definir com quem outros países farão acordos. Isso é que é ser antidemocrático. É querer intervir na política internacional como único mediador legítimo, definindo ao seu bel prazer as relações entre as nações. Desse modo, os EUA assim como todos os outros países que criticaram esse encontro no Brasil, mostram sua face oculta. Face essa que revela a violação da soberania dos países do mundo, tornando-se verdadeiros ditadores da política internacional. E justamente por receber o presidente do Irã e querer estabelecer relações segundo os princípios da diplomacia, cada vez mais eu afirmo que o Brasil é um país democrático por excelência. Ao abrir os portões do Itamaraty à Ahmadinejad, o Brasil firma seu papel num campo tão instável como o da atual política internacional. Independente do passado ou dos atos de um país, a essência da democracia está na eterna tentativa de reconhecer a soberania do outro país enquanto sociedade organizada. O acordo firmado entre o Irã e o Brasil não foi pautado para o Brasil compactuar com a política pregada pelo conselho islâmico do Irã, e sim para contribuir para com as relações entre dois países, ambos formados por povos que desejam conviver em paz.

Devemos ter em mente que não é culpa de um povo se seu governo adota medidas totalitárias. Desse modo não devemos colocar a culpa no povo iraniano pelas perseguições e posicionamentos totalitários tomados dentro e fora daquele país, assim como não podemos culpar os americanos pelas guerras no Oriente Médio. Entretanto não podemos nos calar diante dessas atitudes absurdas tomadas por esses e quaisquer países, uma vez que os responsáveis por tudo isso, antes de tudo são as grandes corporações que por interesses econômicos criam guerras, dividem países, e semeiam a discórdia sob o nome da democracia, palavra essa tão deturparda da sua verdadeira essência. A essência da democracia é a existência de vários ideais sob o princípio da coexistência entre eles. Desse modo, o mais importante é a convivência pacífica com qualquer país independente de suas práticas. O fim da diplomacia está na solução desses conflitos onde a melhor saída sempre será o diálogo. Com isso, reafirmo que o Brasil cumpre com o seu papel na política internacional, pois cumpre com todos os parâmetros de um Estado Democrático de Direito, onde a Lei de Ouro da política internacional consiste em dar continuidade nas relações com outros países e com isso, servir de mediador na política internacional para cada vez mais evitar conflitos desnecessários.

Por isso é obrigação do Brasil construir e manter sua atuação no campo diplomático mundial, pois somente com essa política de diálogo, o país pode continuar a ser uma nação onde muçulmanos e judeus convivem em paz. Onde diferentes grupos sociais convivem entre si. Com isso, o Brasil torna-se um fator essencial na construção de uma política internacional sólida a fim de evitar possíveis conflitos no futuro, conflitos esses oriundos de interesses de grandes corporações que no desejo de lucrarem cada vez mais, passam a dominar territórios por meio do imperialismo exercido pelas potências mundiais. Com isso, é necessário que cada vez mais o Brasil se torne independente para não ceder às pressões dessas potências e assim não se tornar coautor desses jogos de interesses, de modo que com essa independência, o Brasil também se torne um protagonista da construção de um mundo cada vez mais livre dos grilões imperialistas e assim poder criar uma sociedade democrática cada vez mais centrada no direito da pluralidade.

domingo, 22 de novembro de 2009

O que de fato é verdade sobre 2012?


Planetas errantes em rota de colisão com a terra, chegada de ETs, tempestades solares, profecias inventadas... Some todos esses ingredientes e construa a teoria mais popular da internet. O que há de verdade (se é que há alguma) no chamado apocalipse Maia? Você temeria o futuro se levasse a vida de Tom Cruise, com mais de US$ 300 milhões no banco e presença garantida na lista de celebridades mais ricas do mundo elaborada pela revista "Forbes"? Então imagine o impacto da notícia, divulgada no ano passado, de que o superastro estaria construindo um abrigo subterrâneo de US$ 10 milhões no subsolo de sua mansão no Colorado. Segundo o relato publicado pela revista "Star", Cruise estaria convicto de que a Terra experimentará um contato potencialmente devastador com uma raça alienígena em 2012. Um porta-voz do ator desmentiu a notícia, mas o estrago foi feito. A história do bunker de Tom Cruise circula a todo vapor pela internet. Os adeptos do debate formam um grupo de tamanho indefinido, que se espalha por todos os continentes, e que acredita que a vida em nosso planeta vai mudar, para pior ou para melhor, em 21/12/2012.

Nessa data se encerra um calendário que era usado pelos antigos maias no auge da sua civilização. Por isso, todo o movimento envolvendo o ano de 2012 é chamado genericamente também de "profecia maia". Enquanto o tal dia não chega, a turma se prepara consumindo livros, documentários, DVDs e palestras. Uma busca pelos termos "2012" e "maya" (em inglês) no Google revela mais de 2 milhões de citações. Isso é a ponta do iceberg de uma riquíssima comunidade, estruturada em centenas de blogs, fóruns, sites, portais e até uma versão particular da Wikipédia, o "2012wiki". Em fevereiro foi lançado nos EUA "2012 - Doomsday" ("2012 - O Dia do Juízo Final") e recentemente saiu o tão esperado filme "2012" de Roland Emmerichsair, diretor de "Independence Day" (1996). Nos últimos dois anos, pelo menos 18 livros sobre o tema chegaram às prateleiras nos EUA, boa parte com termos como "apocalipse" e "cataclisma mundial" em seus títulos. Por aqui, só no primeiro semestre deste ano foram publicadas três obras.

Essa popularidade é o ponto culminante de um processo que começou há duas décadas. Em 1984, o americano José Arguelles publicou "O Fator Maia". Nele mesclava seus estudos sobre o fim do calendário maia com suas próprias idéias apocalípticas. Arguelles disse que a data marcaria o fim do ciclo do Homo sapiens e o início de uma época ecologicamente mais harmoniosa. E conclamou os leitores a se reunirem em várias partes do mundo nos dias 16 e 17 de agosto de 1987 para meditar e rezar, dando um pontapé inicial para o grande dia que ainda estava 25 anos no futuro. Esse evento, batizado de Convergência Harmônica, atraiu grande atenção da mídia americana e ganhou o apoio de celebridades como a atriz Shirley McLaine. "Arguelles se inspirou em um livro de ficção para criar a convergência harmônica, mas foi ela quem deu início à onda de 2012", afirma Robert Sitler, especialista em cultura maia da universidade Stetson, nos EUA. Arguelles ganhou fama e deu início a um movimento com seguidores no mundo inteiro, inclusive no Brasil. E a New Age ganhou sua própria dimensão profética.

Teorias à la carte

De lá para cá, só fez crescer o número de pessoas que têm desenvolvido suas próprias especulações sobre o que vai acontecer na data tão esperada. E para isso vale recorrer a todas as ferramentas. Um belga utilizou a matemática e a mitologia para fazer uma análise comparativa das civilizações maia e egípcia. Concluiu que as duas são originárias de Atlântida e que o fim do mundo será causado por uma mudança no campo magnético da Terra, relacionada ao ciclo de manchas solares. Um ufólogo calculou a distância entre a linha do Equador e a cidade americana de Roswell, onde um disco voador teria caído. Encontrou o valor de 2.012 milhas - sinal, acredita, de que a queda do óvni foi uma mensagem cifrada sobre a data em que os ETs irão se revelar. Outro americano usou drogas psicodélicas e um computador para analisar o I Ching e concluiu que o livro é um calendário de eventos que prevê o fim da história humana em novembro de 2012 (a data foi ajustada depois). Um matemático, também usando um software, encontrou uma profecia codificada no Antigo Testamento falando de um asteróide (ou cometa) que atingiria a Terra. Um jornalista preferiu compilar os dados sobre vulcanismo, terremotos, queda de asteróides, radiação vinda do espaço etc. e concluiu que todos esses eventos devastadores têm forte possibilidade de acontecer em um futuro muito próximo. E é essa discussão, onde cabe tudo, que está entupindo a internet e as prateleiras. "Há muito pouco de maia nessa história. Essas profecias nada têm em comum, exceto o fato de se referirem à mesma data e apostarem numa transformação radical", diz Sitler.

Para o pesquisador inglês Joseph Gelfer, a aposta na mudança seria uma chave para entender essa onda. Gelfer estuda o interesse por 2012 na Austrália e lembra que profecias existem em muitas culturas. "Mas elas se situam num futuro longínquo, não são iminentes. Essa idéia também faz com que algumas das piores características dos nossos tempos, como as guerras ou a mudança climática, sejam vistas como etapas para a transformação", diz. Outro fator importante é o grande volume de informação pseudocientífica. "Muitos dos que rejeitam os conceitos New Age se interessam pelas profecias de 2012. A maior parte do que se diz sobre o assunto é apresentado como o resultado de rigorosa pesquisa, mas são, na verdade, idéias questionáveis ou pura especulação.

Resgate Alienígena

Quem crê em extraterrestres vê esperança da sua chegada à Terra nas profecias de 2012. Talvez o grupo que tenha mais esperanças positivas para 2012 seja o dos apaixonados por OVNIs. Não dispensam o temor de um cataclisma, mas acreditam que a data irá inaugurar uma nova era para a humanidade, marcada pelo contato com os ETs. Eis um exemplo típico de profecia ufológica, colhida entre as centenas de sites que debatem o tema: "Crescem os rumores de que civilizações extraterrestres estão preparando um evento espetacular em 2012. Ninguém sabe ao certo o que os maias realmente esperavam para o iminente cataclisma. Mas agora muitos centros de pesquisa crêem que a Terra passará por um grande perigo em 2012 e depois. No momento certo, avançadas civilizações extraterrestres resgatarão a civilização humana. De acordo com pesquisadores, a Federação do Universo, representando todas as 88 constelações, virá oficialmente visitar a Terra. Isso porá um fim à ocultação de OVINs em todos os continentes". Para o Centro de Ufologia Brasileiro - CUB nada acontecerá em 2012 e a vida continuará normalmente na Terra. Para esta instituição isso não passa de especulação.

Profecia Maia

Textos originais são vagos e dão margem a todo tipo de interpretação. Foi o que bastou para a sua usurpação e a criação do mito contemporâneo sobre o Apocalipse. O calendário de conta longa é apenas um entre os vários que os maias usavam. Assim como os nossos meses, anos e séculos, ele se estrutura em unidades de tempo cada vez maiores. Cada 20 dias formam um "mês", ou uinal. Cada 18 uinals, 1 tun, ou "ano", cada 20 tuns faziam um katun e assim sucessivamente. Enquanto o nosso sistema de contagem de séculos não leva a um fim, o calendário de conta longa maia dura cerca de 5.200 anos e se encerra na data 13.0.0.0.0, que para muitos estudiosos (não há um consenso a respeito) corresponde ao nosso 21/12/2012. Isso não significa que eles esperassem pelo fim do mundo naquele dia. "Os povos ameríndios não tinham apenas uma concepção linear de tempo, que permitisse pensar num fim absoluto", diz Eduardo Natalino dos Santos, professor de história da América Pré-hispânica da USP. Ele diz que há textos míticos maias que falam em idades anteriores ao aparecimento da humanidade atual, e afirmam que a era atual duraria 5.200 anos. "Mas em nenhum lugar se diz que o ciclo que estamos vivendo seria o último." A maioria dos estudiosos acredita que, após chegar à data final, o calendário se reiniciaria. Assim como, para nós, o 31 de dezembro é sucedido pelo 1 de janeiro, para eles o dia 22/12/2012 corresponderia ao dia 0.0.0.0.1.

Entre os milhares de textos maias conhecidos, há apenas um que faz menção à data. Uma inscrição encontrada na ruína de Tortuguero (Costa Rica) diz que nela virá à Terra Bolon Yokte K'u, deus associado à guerra e à criação. Um indício indireto da mesma profecia está nos "Livros de Chilam Balam". Escrita por vários autores após a conquista espanhola, a obra traz previsões para os katuns que, num outro sistema de contagem de tempo, se repetem a cada 256 anos. Para o katun associado a 2012, o livro prevê a chegada de vários seres, entre eles "aquele que vomita sangue" e o deus Kukulcan, muito popular na América Central. Mas mesmo esses textos talvez não correspondam ao que entendemos por profecias. Natalino diz que, embora os maias tivessem uma visão qualitativa do tempo - havia períodos "benéficos" e "maléficos" - isso não implica que fossem fatalistas. Os finais dos ciclos eram datas religiosamente importantes, pois num deles a idade atual poderia terminar. "Mas os sacerdotes podiam realizar certas práticas que assegurassem a continuidade do mundo", explica Natalino. Ele diz que no período colonial e depois houve rebeliões populares inspiradas pelas profecias de Chilam Balam. "Mas basta dar um pulo à América Central para ver que os maias de hoje estão cheios de projetos e nem um pouco preocupados com 2012."

Inversão Magnética

Mais uma carga de lenha na fogueira de 2012: suposto enfraquecimento do campo magnético terrestre levaria à incidência letal de partículas solares. A luz e o calor produzidos pelo Sol tornam a vida na Terra possível. Mas, se não fosse pelas defesas que temos contra a radiação e o fluxo de partículas que chegam continuamente vindos da estrela, também não estaríamos aqui agora. Uma das principais defesas de nosso planeta é o seu campo magnético. Explicando de maneira simples, ele possui dois pólos, um norte e outro sul, que atualmente se situam mais ou menos perto dos pólos geográficos. Mas os geofísicos sabem que, de tempos em tempos, as polaridades se invertem, isto é: o ponto onde fica o pólo sul magnético se torna o ponto do pólo norte, e vice-versa. "Sabemos que centenas de inversões aconteceram no passado, mas não se sabe o que as causa", diz Eder Molina, professor do Instituto Astronômico e Geofísico da USP. A mais recente inversão ocorreu há 700 mil anos. E a próxima talvez esteja a caminho. "Sinais sugerem que alguma coisa está acontecendo. A intensidade do campo entre os pólos norte e sul está diminuindo. Acredita-se que essa diminuição possa ser parte de um processo de reversão, embora isso seja apenas uma hipótese."

A ocorrência de uma inversão súbita dos pólos magnéticos terrestres é um dos cenários apocalípticos previstos para 2012. Será isso que os cientistas estão detectando? "Não", diz Molina. "Os indícios sugerem um processo muito gradual, que levará talvez milhares de anos. Nós conhecemos muito bem o campo magnético terrestre, graças ao mapeamento feito por observatórios e satélites. Essas informações nos ajudam, por exemplo, a procurar petróleo e minerais valiosos. Se uma mudança brusca estivesse ocorrendo, já teria sido detectada." Molina afirma que veríamos muitos sinais, sob a forma de problemas nas telecomunicações e o desligamento de usinas elétricas. Não haveria como esconder um problema desses, pois o que estaria em jogo seria a sobrevivência da civilização. Mas não vemos nada disso por aí.

Ciclos Solares

Aparente hiperatividade do astro alimenta especulações sobre bombardeio radioativo. Mas a estrela está se comportando conforme o previsto. Muitos dos cenários para 2012 baseiam-se na idéia de que o Sol estaria passando por um período de atividade sem precedentes. Os defensores dessa tese ressaltam o fato de que, entre 28 de outubro e 4 de novembro de 2003, ocorreram algumas das maiores explosões solares já registradas. Em 20 de janeiro de 2005, a Terra registrou o maior bombardeio de partículas de alta energia oriundas do Sol. Como 2005 foi o ano do furacão Katrina, há quem vincule os fenômenos, sugerindo que o clima é governado por variações na atividade solar. Como a previsão dos astrofísicos é de que 2012 registre um ponto de alta atividade em nossa estrela, há quem acredite que a soma de tudo isso seja uma catástrofe. As variações na atividade solar são causadas por mudanças na configuração do campo magnético que ocorrem a cada 11 anos. Para Adriana Silva Valio, pesquisadora do Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie, basta dar uma olhada nos dados dos últimos oito anos para ver que o Sol tem se comportado normalmente. De lá para cá, a atividade reduziu-se, e a tendência é que, nos próximos anos, volte a se intensificar, alcançando patamares elevados em 2012. Tudo isso está dentro do esperado.

O decréscimo da atividade aconteceu mesmo com as superexplosões de 2003. "O fato é que a tecnologia para acompanharmos o fenômeno é muito recente. Talvez eventos semelhantes tenham acontecido no passado", afirma Adriana. Ela também diz que o ciclo solar de 11 anos, por si só, não parece ser capaz de afetar significativamente o clima da Terra. "No ponto de maior atividade, a quantidade de energia solar recebida pela Terra cresce apenas 0,1%". Porém, ela diz que fatores desconhecidos e ligados ao Sol parecem sim afetar o clima na Terra. "No século 18, o Sol não apresentou manchas por sete décadas. O mundo ficou mais frio, e os canais de Veneza congelaram. Mas parece que para que mudanças assim ocorram levam décadas ou mesmo séculos", diz.

Nibiru

Hipotético décimo planeta do Sistema Solar (há quem diga que se trata de uma outra estrela) estaria rumando de encontro à Terra. Acredite se quiser? Melhor não. Muito antes que a data de 21/12/2012 começasse a tocar corações e mentes, o israelense Zecharia Sitchin começou a divulgar suas idéias sobre a origem da Terra, inspiradas, segundo ele, na decifração de antigos textos babilônicos. De acordo com Sitchin, há em nosso sistema solar um objeto que a ciência moderna desconhece e que os antigos chamavam de Nibiru. Esse objeto, que pode ser um planeta ou uma pequena estrela, passaria próximo ao Sol a cada 3.600 anos. Sitchin afirma que, em uma dessas passagens, uma colisão entre um de seus satélites e um planetóide que existia entre Marte e Júpiter teria dado origem à Terra. Outros autores passaram a usar as idéias de Sitchin nos anos 1990. Eles dizem que Nibiru vai passar por perto de nosso planeta em 2012, e a atração gravitacional entre os dois resultará em dilúvios e terremotos.

Para Carlos Henrique Veiga, astrônomo do Observatório Nacional, é possível que existam planetas ainda desconhecidos no Sistema Solar. Poderiam ter, inclusive, algumas das características atribuídas a Nibiru, como um período muito longo e órbita extremamente elíptica. "Mas as órbitas de planetas não se sobrepõem umas às outras. Esse cruzamento só ocorre com cometas e asteróides." Quanto à segunda possibilidade, a de que Nibiru seria uma estrela se escondendo nas vizinhanças, Veiga diz que sua presença causaria uma alteração na dinâmica do Sistema Solar. "Tanto ela quanto o Sol teriam que girar ao redor de um centro de massa. Os planetas girariam em torno das duas ou desse novo ponto central. Não é isso que estamos vendo", afirma. Outro cenário sugere que, em 21/12/2012, o Sol, ao nascer, estaria alinhado com o plano da Via-Láctea. Nessa posição, receberia algum tipo de irradiação misteriosa vinda do centro da galáxia. Essa informação, porém, é contestada até por autores de populares livros sobre 2012, como o astrônomo John Major Jenkins. O que é verdade é que o Sol está cruzando o plano da nossa galáxia, mas isso não é motivo para preocupação. "O centro da Via-Láctea está a quase 30 mil anos-luz de distância. Por isso, esse posicionamento não deverá trazer maiores conseqüências. No máximo, pode favorecer a atração de cometas e asteróides em direção ao Sol", diz Veiga.

Retirado de: CUB - Centro Ufológico Brasileiro

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Economia Baseada em Recursos


Uma economia baseada em recursos é um sistema onde todos os bens e serviços estão disponíveis sem o uso de dinheiro, crédito, escambo ou qualquer outro sistema de débito ou servidão. Todos os recursos tornam-se patrimônio comum de todos os habitantes, não de apenas uns poucos selecionados. A primissa sobre a qual esse sistema é baseado é a de que a Terra seja abundante em recursos; nossa prática de racionamento de recursos através de métodos monetários é irrelevante e contraprodutiva a nossa sobrevivência. A sociedade moderna tem acesso à tecnologias de ponta e pode disponibilizar comida, vestimenta, moradia e assistência médica; atualizar nosso sitema educacional; e desevolver um suprimento ilimitado de energia renovável e não-poluente. Através da provisão de uma economia projetada de forma eficiente, todos podem desfrutar de um elevadíssimo padrão de vida com todas as amenidades de uma sociedade altamente tecnológica.

Uma economia baseada em recursos usaria os recursos existentes da terra e do mar, o equipamento físico, indústrias etc. para engrandecer a vida de toda a população. Numa economia baseada em recursos no lugar de dinheiro, poderíamos facilmente produzir todas as necessidades biológicas e fornecer um elevado padrão de vida para todos. Considere os seguintes exemplos: No início da Segunda Guerra Mundial os EUA tinha apenas cerca de 600 aviões de combate de primeira classe. Nós rapidamente superamos esse suprimento limitado ao produzirmos mais de 90 mil aeronaves por ano. A questão no início da Segunda Guerra Mundial era: "nós temos os fundos suficientes para produzir os utensílios de guerra precisos?". A responsta era: "não. Não possuímos dinheiro, nem ouro o bastante; mas temos recursos de sobra". Foram os recursos disponíveis que possibilitaram aos EUA que alcançássem a alta produção e eficiência precisos para vencer a guerra. Infelizmente, isso é somente considerado em tempos de guerra.

Numa economia baseada em recursos, todos as recursos são tidos como patrimônio comum a todas as pessoas do planeta Terra, de forma a eventualmente transcender a necessidade de fronteiras artificiais que separam as pessoas. Esse é o imperativo unificador. Devemos enfatizar que esta abordagem para um governo global não tem absolutamente nada em comum com os presentes objetivos da elite de formar um governo mundial dirigida por ela e pelas grandes corporações. Nossa visão de globalização autoriza todas as pessoas do planeta a ser as melhores que puderem, não a viver sobre submissão abjeta de um corpo governamental corporativo. Nossas propostas não só contribuiriam para o bem-estar das pessoas, como também forneceriam a informação necessária para que elas participem em qualquer área de sua competência. O sucesso seria medido pela satisfação das atividades individuais em vez da aquisição de riqueza, propriedade e poder. No momento, temos recusos materiais suficientes para prover um altíssimo padrão de vida para dos os habitantes da Terra. Apenas quando a população excede a capacidade de sustentação da terra é que muitos problemas como a ganância, o crime e a violência emergem. Ao superarmos a escassez, a maioria dos crimes e até as prisões da sociedade de hoje não seriam mais necessários.

Uma economia baseada em recursos possibilitaria o uso da tecnologia para superar a escassez de recursos ao aplicar fontes renováveis de energia, informatizar e automatizar a manufatura e o inventário, projetar cidades seguras e energeticamente eficientes e sistemas avançados de transporte, providenciar um serviço de saúde universal e uma educação mais relevante e, sobretudo, ao gerar um novo sistema de incentivo baseado na preocupação humana e ambiental. Muitas pessoas acreditam que hoje exista muita tecnologia no mundo, e que essa tecnologia é a principal causa de nossa poluição ambiental. Não é esse o caso. É o abuso e o desuso da tecnologia que deve ser a nossa principal preocupação. Numa sociedade mais humana, em vez de as máquinas substituírem as pessoas elas reduziriam a jornada de trabalho, amentariam a disponibilidade de bens e serviços, e prolongariam o período de descanso. Se usarmos novas tecnologias para elevar o padrão de vida de todas as pessoas, então a infusão da tecnologia mecânica deixaria de ser uma ameaça.

Uma economia mundial baseada em recursos também envolveria esforços completos para o desenvolvimento de novas fontes de energia, limpas e renováveis: geotérmica; de fusão controlada; solar; fotoelétrica; eólica, das ondas e das marés; e até combustível dos oceanos. Nós eventualmente seríamos capazes de possuir energia em quantidade ilimitada que poderia impulsionar a civilização por milênios. Uma economia baseada em recursos também deve se comprometer com o replanejamento de nossas cidades, sistemas de transporte e indústrias, permitindo que eles sejam energeticamente eficientes, limpos, e que sirvam de forma conveniente às necessidades de todas as pessoas. No que mais um economia baseada em recursos implicaria? A tecnologia, inteligente e eficientemente aplicada, economiza energia, reduz o desperdício e porporciona mais tempo livre. Com um inventório automatizado numa escala global, podemos manter um equilíbrio entre a produção e distribuição. Somente alimentos nutritivos e saudáveis estariam disponíveis e a obsolescência planejada seria desnecessária e inexistente numa economia baseada em recursos.

Ao nos livrarmos da necessidade de profissões baseadas no sistema monetário, como por exemplo advogados, banqueiros, vendedores de seguro, equipes de marketing e publicidade, vendedores e corretores de valores, uma quantidade considerável de desperdício será eliminada. Quantias respeitáveis de energia também seriam poupadas ao se eliminar a duplicação de produtos competitivos como ferramentas, talheres, panelas frigideiras e aspiradores de pó. É bom poder escolher. Mas no lugar de cetenas de diferentes fábricas e toda a papelada e pessoal necessários à produção de produtos similares, apenas uma pequena parcela da mais alta qualidade seria necessária para servir à população inteira. Nossa única deficiência é a falta de pensamento criativo e inteligência em nós mesmos e nos nossos líderes eleitos para resolver esses problemas. O recurso mais valioso e inesplorado hoje é a engenhosidade humana. Com a eliminação da dívida, o medo de se perder o emprego deixará de ser uma ameaça. Essa segurança, combinada à educação sobre como se relacionar com os outros de um mudo muito mais significativo, poderiam reduzir consideravelmente tanto o estresse mental como o físico e deixar-nos livre para explorar e desenvolver nossas habilidades.

Se a ideia de se eliminar o dinheiro ainda incomoda você, considere isto: se um grupo de pessoas com ouro, diamantes e dinheiro ficassem presos em uma ilha desprovida de recursos como comida, ar e água limpos, a riqueza deles seria irrelevante a sua sobrevivência. Somente quando os recursos são escassos é que o dinheiro pode ser usado para controlar sua distribuição. Não se pode, por exemplo, vendar o ar que respiramos ou a água que flui abundante da nascente de uma montanha. Apesar do ar e da água serem valiosos, quando abundantes, eles não podem ser vendidos. O dinheiro só é importante em uma sociedade quando certos recursos para a sobrevivência devem ser racionados e as pessoas aceitam o dinheiro como meio de troca para recursos escassos. O dineiro é uma convenção social, um acordo por assim dizer. Ele não é um recurso natural nem representa um. Ele não é necessário à sobrevivência, a menos que tenhamos sido condicionados a aceitá-lo como tal.

Retirado de: Projeto Vênus

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Do Ceticismo ao Ateísmo - Parte 3


Argumentos Antropológicos e Sociológicos

Durante os séculos a tradição religiosa foi passada de geração em geração. Todos os seus mitos, lendas, histórias e dogmas foram repetidos regularmente através dos rituais criados pelos homens, e que segundo eles, serviriam para conectar o homem a Deus. Entretanto, todos se esquecem de analisarem a fonte de tudo o que seguem os ensinamentos dos mestres das religiões, fazendo com que muitas vezes as pessoas apenas sigam essas tradições apenas porque foram repassadas por tradições em vez de procurar cumprir com a única função que religião deveria ter: O auto-aprimoramento.

- A natureza contraditória da religião

As religiões possuem sua base na figura e no trabalho de uma única pessoa. Uma pessoa especial, carismática, real ou imaginária, que junta multidões seja fisicamente, ou através de livros, e que após um processo histórico-doutrinário, ganha o status de mito. Mesmo quando essa pessoa fala explicitamente que não veio fundar nenhuma religião, acaba-se criando uma nova, geralmente depois que a pessoa morre, adotando o nome da pessoa em questão. Religião não é mais do que juntar pessoas com a mesma crença. Mas para o que? Pra conversar, debater, mostrar seus dotes intelectuais, ou físicos, ou desfilar pelo templo com aquela roupa maravilhosa que comprou no exterior?

Claro que uma minoria vai para aprender a história e para praticar o exemplo do fundador dessa religião. E esse, que deveria ser o único motivo da existência de uma religião, acaba virando uma mercadoria na vitrine da crença, perdida nas competições para ver quem tem maiores e melhores templos, contagem de pessoas convertidas, arrecadação de dinheiro e até mesmo o poder sobre certos países, além de outras coisas mais. Só que, após aprender a história e os exemplos desses avatares, sábios, messias, mestres, santos, as pessoas continuam na cômoda posição de continuar a frequentar esses templos, igrejas, reuniões, centros, como se isso lhe garantisse compartilhar da sabedoria, iluminação, santidade do fundador que mal tinha onde morar, quanto mais ter um luxuoso templo em sua homenagem. Raros são os que botam em prática o que aprenderam, pois no fim das contas estão mais preocupados em seguir corretamente o ritual estipulado em vez de se preocupar em seguir os ensinamentos do fundador da religião. Mas o que realmente impressiona nesse espectro de manipulação são as instituições, que tomando para si uma autoridade de condução da crença, que segundo elas, foi-lhes concedida diretamente pelo próprio fundador, muitas vezes vão em sentido totalmente oposto ao da doutrina, praticando tudo aquilo que o fundador tanto advertiu para não fazerem. E no fim das contas, colocando-se como detentoras da moral e da ética segundo uma verdade absoluta que só poderá ser encontrada nelas, tornam-se isentas pela própria comunidade, uma vez que confundem a autoridade da instituição com a autoridade do dito fundador da crença.

Desse modo, a religião deve ser apenas um meio do indivíduo por meio da crença nos ensinamentos do fundador, possa ser uma pessoa melhor por meio da prática dos mesmos, e assim melhorar o mundo. Entretanto, a partir do momento em que o indivíduo passa a valorizar mais a prática dos rituais em vez do estudo e da prática dos ensinamentos, a religião passa a ser uma pedra a ser arrastada pelo indivíduo, fazendo-o perder o foco da prática espiritual proposta pela personalidade que e o foco da crença do indivíduo. Por meio de uma dogmatização regular, o indivíduo passa a ser apenas mais um seguidor de uma crença guiada por um líder que é tido como o intérprete da mensagem do fundador, quando na verdade não deveria haver nenhuma barreira entre esse conhecimento e essa prática, uma vez que a fé é algo pessoal e não coletiva. Dessa maneira, a própria fé perde a sua característica, sendo massificada a ponto de desviar o foco da mensagem proposta.

- A essência da mensagem

Como foi dito, o foco dos ensinamentos dos fundadores das religiões não é o cumprimento de rituais ou de doutrinas estabelecidas, mas do aprimoramento e da evolução pessoal. Por meio de uma prática regida pela ética para consigo mesmo e para com o próximo a pessoa se aproximaria de Deus, que é a perfeição em excelência. Em suma, os ensinamentos de todas as religiões se baseiam na clássica regra de ouro: Não faças aos outros o que não queres que seja feito a você. Esta regra é a essência de como viver uma vida correta segundo as religiões. Mas por que devemos viver corretamente? Em suma, devemos viver corretamente para evitarmos sofrermos. Quando o homem age, seus atos lhe trarão consequências boas ou ruins, por isso para evitar o sofrimento vindo das más consequências dos seus atos o homem deve agir corretamente. Mas nesse processo de ação e consequência, o homem não observa o mundo que o cerca e desse modo não compreende que é por falta dessa observação e análise do mundo ao seu redor que ele se deixa iludir por seus instintos e más percepções, fazendo com que ele haja erroneamente devido à sua ignorância. Desse modo, o homem passa a sofrer pelas más consequências dos seus atos. Entretanto antes do homem agir, ele formula por meio do seu pensamento a ação, seja por plena consciência, seja por pura ignorância. Com isso antes de existir a ação existe o pensamento.

Logo o foco da mensagem espiritual é a transformação da mente humana para que o homem passe a ter consciência do mundo e dele mesmo, e que para com isso ele possa evitar de agir erroneamente e com isso gerando sofrimento não só para com ele mesmo, mas também para com os seus semelhantes. De Buda a Cristo, de Sócrates a Zaratustra, a mensagem considerada espiritual nada mais significa do que uma mudança do homem enquanto ser para com isso conquistar a plenitude dele mesmo, plenitude essa que os homens chamam de Ser Superior. Este ser superior a que os homens dão o nome de Deus, nada mais é do que o próprio homem evoluído, que com essa consciência passa a dominar todos os mundos do universo em que vive e que criou. Analisando o sentido psicológico dos textos sagrados e ensinamentos dos profetas e filósofos, encontramos uma clara mensagem de busca pela autoconsciência e pelo autoconhecimento a fim de que o homem possa conhecer sua essência para se realizar enquanto ser superior. Esta análise é apresentada pelo filósofo Ludwig Feuerbach em sua obra “A Essência do Cristianismo”:

“A religião é o relacionamento do homem consigo mesmo ou, mais corretamente: com a sua essência, mas o relacionamento com a sua essência como uma outra essência. A essência divina não é nada mais do que a essência humana, ou melhor, a essência do homem abstraída do homem individual, real, corporal, objetivada, contemplada e adorada como uma outra essência própria, diversa da dele. Por isso todas as qualidades da essência divina são qualidades da essência humana”.

- Manipulação pela doutrinação

Todos os termos referentes à espiritualidade como espírito, alma, inferno, céu, anjos, demônios, vida após a morte, ressurreição e salvação, tudo isso nada mais significa além de metáforas e simbolismos utilizados para descrever o processo de evolução da mente do ser inferior para a realização do ser superior. Com isso, todos os aspectos doutrinários das religiões tornam-se obsoletos se colocados como sob um aspecto metafísico no sentido espiritualista tradicional, pois ao longo dos séculos presenciamos a materialização desses aspectos, onde o homem, movido pela sua ignorância, passa a dar uma forma literal às palavras proferidas os ensinamentos religiosos. Com isso temos a representação de demônios como sendo monstros, do céu como sendo um lugar material acima das nuvens, a salvação como sendo o escapismo de um tormento num vale de fogo e lava, de ditos milagres como sendo a manifestação material de um poder divino que só são relatados e testemunhados somente na época da narração do fato. Enfim, a falta de conhecimento vinda da população em geral e o interesse dos líderes religiosos em manipular a mensagem e o real significado dos ensinamentos criando mitos e deturpando histórias dentro dos fatos existentes em torno da personalidade divinizada, cria os diversos aspectos mitológicos e fantasiosos das religiões que são o mero reflexo da imaginação humana criando escapismos fantasiosos para que com isso possa ter uma razão maior diante da dura existência em que ele se encaixa.

Por isso, com o medo da morte como uma extinção da existência que leva o homem a criar uma vida após a morte, que para contrastar diante da triste realidade da vida, o mesmo passaria a viver uma vida tranquila, como uma recompensa divina pelo sofrimento que passou em vida. E devido à esse sofrimento, o próprio Deus vem ao mundo para se solidarizar com o homem e com isso o mesmo exerce um papel de eterno expiador dos erros dos homens, estes, encorajados a sempre se arrependerem dos erros e mudarem de postura para que após a morte possam receber a recompensa pela vida correta que levaram. Mas caso levem uma vida desregrada, o mesmo será condenado pelos erros a viver eternamente em uma vida de sofrimento. Esse aspecto de vida após a morte advinda dos atos do homem mostra-se um fato absurdo, pois no fim das contas, torna-se um mero contrato entre o homem e o ser superior, onde para evitar o sofrimento eterno e/ou compensar o sofrimento em vida, o mesmo age corretamente durante a sua existência. Entretanto esse mesmo sistema de troca metafísico torna-se puramente hipócrita, pois no fundo o homem apenas agiria corretamente somente pelo interesse em ir para o céu após a morte e pelo temor do sofrimento eterno.

Por isso, com a aceitação dessa doutrina pela sociedade, a sociedade tornou-se refém da religião, pois a partir do momento em que há essa concepção de vida após a morte, qualquer ato convencionado como errado, passa a ser vetado pelo próprio homem. Com isso temos a clara manipulação da vontade do homem, e por fim de uma sociedade vinda da religião. Desse modo, as castas definidas na sociedade que possuem poder podem facilmente conduzir a sociedade da maneira que desejarem. A partir que uma sociedade passa a negar a autoridade de tal fato diante do convívio social, o Estado passa a não mais agir segundo a religião e sim segundo as forças de coação como a Justiça e as Forças Armadas. Entretanto, até hoje temos uma grande influência da religião como um meio de regulação do indivíduo que antes de tudo, leva em consideração os fatores doutrinários estabelecidos pela religião. Por isso antes de não agir pelo medo do Estado, o homem não age por medo do Inferno, do Samsara, do Tártaro e da Condenação Eterna. Portanto a partir do momento em que o homem procura compreender a verdadeira essência da mensagem das religiões, o homem compreende que seu foco está na mudança da mente do ser humano como fator de evolução enquanto ser e não como a realização de uma fantástica história da disputa metafísica entre Deus e o Demônio pela alma do ser humano. Desse modo, o homem se liberta de tradições que foram repassadas simplesmente por uma convenção da sociedade, tradições estas vindas da manipulação de fatos pelos líderes da sociedade com a finalidade de doutrinar as mentes a obedecerem ao sistema criado e justificado segundo a crença em questão.

sábado, 7 de novembro de 2009

Do Ceticismo ao Ateísmo - Parte 2


Argumentos filosóficos a cerca da inexistência de Deus

- O Paradoxo de Epicuro

Escrito pelo filósofo grego Epicuro, este texto trata da contradição existente entre os atributos de Deus para que possam ser considerados como características de um Deus perfeito. A contradição gira em torno de três atributos de Deus: a onipotência, onisciência e benevolência. Logo com essa contradição Deus não poderia ser um ser perfeito segundo é descrito pelos seus atributos, assim Deus não poderia existir. Segundo o “Paradoxo de Epicuro”:

“Deus quer prevenir o mal, mas não consegue?
Então Ele não é onipotente.
Ele consegue, mas não quer?
Então ele é não é benevolente.
Ele quer e ele consegue?
Então por que o mal acontece?
Ele não quer e não consegue?
Então por que o chamam de Deus?”

Como visto no texto, a contradição gira em torno do fato de que se Deus é onipotente, onisciente e benevolente então o Mal não poderia continuar existindo. Para Deus e o Mal continuarem existindo ao mesmo tempo seria necessário que Deus não tivesse um desses seus três atributos. Se for onipotente e onisciente, então Ele tem conhecimento de todo o Mal e tem o poder para acabar com ele, mas ainda assim Ele não o faz. Logo Deus não seria Bom. Se for onipotente e benevolente, então tem o poder para extinguir o Mal e quer fazê-lo, pois é Bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto Mal existiria, e onde o Mal estaria. Então Ele não seria onisciente. Se for onisciente e Bom, então saberia de todo o Mal que existe e quer mudá-lo. Mas isso eliminaria a possibilidade de ser onipotente, pois se o fosse erradicaria o Mal. E já que Ele não pode erradicar o Mal, então não poderia ser Deus, uma vez que para ser precisaria possuir essas três características. Logo Deus não existiria.

Embora se utilize o argumento da Onipotência Benevolente para justificar o mal, o mesmo é injustificável como sendo obra de Deus. A prova disso é que se criaram dogmas e mitologias para atribuir o mal a outros entes como Satanás. Entretanto pela mesma teologia, Deus permite a existência do mal. Desse modo, o mal continua sendo uma responsabilidade de Deus, não podendo escapar dessa análise da contradição entre esse fenômeno e os atributos descritos como sendo parte da natureza divina. Desse modo, o Paradoxo de Epicuro seria um tiro no pé de qualquer tentativa de provar a existência de Deus pela sua própria natureza. E assim Deus não existiria.

- O Paradoxo da Pedra

O “Paradoxo da Pedra” foi desenvolvido pelo filósofo muçulmano Averróis. Este, um grande interprete e reformulador da filosofia islâmica, em um dos seus vários estudos elaborou uma complexa análise sobre o atributo divino da Onipotência, que entra em xeque segundo a questão proposta por ele:

“Pode um ser onipotente criar uma pedra que não consiga erguer?”

Analisando esta pergunta, partimos do pressuposto que só pode ocorrer dois fatos: Ou Deus consegue ou não consegue criar a pedra que não é possível erguer. Se Deus conseguir criar a pedra, Ele não será onipotente, já que não a conseguirá erguer. Se Deus não conseguir criar a pedra, Ele também não será onipotente, pois não a conseguirá criar. Desse modo, Deus não poderá ser onipotente, pois em ambos os casos sua onipotência se anula por um fenômeno maior. Assim não sendo onipotente, Ele não poderá ser Deus e não sendo, Deus não existiria.

De fato, nesta situação hipotética a existência de Deus é colocada em uma situação complicada, onde em ambos os casos não haveria a onipotência, excluindo qualquer possibilidade de Deus existir. Muito tem se tentado explicar, até com o argumento de que tal pedra não poderia existir, pois Deus pode tudo. Entretanto o fato é que é Deus e não a pedra que precisa ser considerado, pois a questão gira em torno de algo que Deus criaria e seria mais poderoso que Ele. Essa proposição nos remete ao “Paradoxo da força irresistível”, que questiona sobre “o que acontece quando uma força irresistível encontra um objecto inamovível?”. A resposta é que, sendo a força irresistível então o objecto não é verdadeiramente inamovível, e de forma inversa, se o objecto fosse inamovível, então a força não seria verdadeiramente irresistível. O que é um novo dilema, já que a onipotência de um ser torna a onipotência do outro impossível. Entretanto o fato é que Deus é que criou a pedra e não a pedra que criou Deus, logo o praticante da ação de criar a pedra é que deve ser levado em consideração e não a pedra, resultado de uma suposta vontade impossível, assim retornando à análise dos dois fatos, a onipotência de Deus se invalidade em ambos os casos, desse modo impedindo que Deus seja onipotente, desse modo não podendo Deus existir.

- O Paradoxo da Onisciência

Tomando como premissa que deus é onisciente, ou seja, sabe tudo sobre tudo, então podemos supor que sua sapiência rompe a barreira da noção de tempo humana, ou seja, Deus sabe o que vai acontecer antes de acontecer. Considerando que Deus interfira na vida dos humanos, realizando milagres ou ajudando-os durante suas vidas, podemos considerar que Deus sabe quando vai interferir na vida de uma pessoa antes mesmo que ele interfira.

Aí entra a questão: Deus é capaz de prever seu estado futuro? Por exemplo: Amanhã Deus irá curar alguém de câncer. Deus saberia hoje que amanhã ele irá curar alguém de câncer? Sendo Deus onisciente, então deveria saber disso. Mas isso cria uma questão crucial: Se Deus sabe o que vai fazer amanhã, então ele está preso em um determinismo. O seu futuro já estaria escrito. Ele não poderia modificar o que fará amanhã, pois sua onisciência já lhe mostrou o que ele iria fazer. Se ele puder modificar o que viu com sua onisciência, então sua onisciência seria falha, já que ele saberia que iria mudar de opinião por causa da sua consciência de que iria curar a pessoa de câncer.

Digamos então que Deus não pode prever o que irá fazer amanhã, mas, obviamente, pode ver o que acontecerá com os humanos antes que aconteça. Digamos então que ele viu que amanhã uma pessoa será curada do seu câncer. Desse modo teríamos Deus prevendo um estado futuro de uma pessoa que foi causado por um estado futuro do próprio Deus. Se ele viu a pessoa curada de câncer, foi porque ele curou. Então indiretamente ele se viu curando a pessoa de câncer. Se sua onisciência é perfeita, então ele não tem como escapar: terá que curar a pessoa amanhã. Se ele puder mudar sua opinião e resolver não curar a pessoa de câncer, então sua onisciência não é perfeita, pois se fosse, teria que prever que mudaria de opinião após sua primeira previsão. Desse modo, Deus não poderia ser onisciente, logo Deus não poderia existir.