sábado, 23 de maio de 2009

Anjos e Demônios, "O FILME"!


Nessa semana resolvi assistir ao filme Anjos e Demônios, o qual esperava desde que li o livro. Assisti impressionado devido à reprodução perfeita do Vaticano (afinal o mesmo não iria deixar filmar dentro da Basílica, muito menos tocar fogo numa igreja), principalmente a Basílica de São Pedro, sem falar nos efeitos especiais desde as mortes dos cardeais até a impressionante explosão da antimatéria que pensei que fosse detonar todo o Vaticano de tão forte que foi. Mas algo me deixou incomodado. O eterno karma da adaptação que sempre decepciona os fãs que esperam ver seu livro favorito no cinema também atingiu Anjos e Demônios. Passado o momento de decepção após ver o filme, afinal muita coisa foi mudada, e de modo muito absurdo para quem leu o livro, eu tive mais um momento de Iluminação, pois quando estava voltando para casa me perguntava porque fizeram aquelas mudanças. E eis que obtive uma resposta quase que divinamente inspirada.

Pois bem, antes de dar uma de São João e revelar toda história e seu fim (principalmente porque foi justamente lembrando da cena final que me esclareci), devo fazer algumas considerações importantes sobre o filme. O Vaticano tentou boicotar o filme mais uma vez alegando ele ser outro filme anti-católico de Ron Howard. Mas para quem leu o livro já sabe que a história é bem menos conspiratória que o Código Da Vinci, o máximo de heresia no livro é o fato do Papa ter tido um filho por inseminação artificial para não quebrar o celibato, e também o fato do Camerlengo dar uma de Anticristo quase destruindo a Igreja. No mais, é um belo livro de ficção. Mas aí é que está, o filme é uma adaptação do livro onde o diretor implementou um teor conspiratório mais profundo do que o Código Da Vinci, visto que mexe numa das conspirações mais reais e intrigantes da história recente: A morte de João Paulo I.

Antes de tocar nesse assunto preciso dizer algumas mudanças do filme: Para "diminuir" a polêmica, o Camerlengo não é o filho do papa. Vittoria Vetra não é a filha adotiva de Leonardo, o padre cientista que é assassinado no início livro. A história se passa depois de "O Código Da Vinci" e o Camerlengo Carlo Ventresca não é italiano, é irlandês, e se chama Patrick McKenna. Mesmo tirando algumas polêmicas do livro, outras foram inseridas no filme. Sem entrar muito no enredo do filme, tenho que explicar algo em comum a história que foi apresentado na adaptação. Em Anjos e Demônios, o papa é assassinado pela própria igreja, mais precisamente pelo Camerlengo que dá veneno para o papa morrer, pois o pontífice era a favor das pesquisas que comprovariam a existência de Deus com a antimatéria. Entretanto a morte do papa é abafada pela igreja que diagnostica um derrame como a causa da morte devido a não realização da autópsia uma vez que as leis eclesiásticas a proíbem por questões morais, sendo que essa conspiração só é descoberta no final da história.

Voltando no tempo, temos uma alusão à misteriosa morte do papa João Paulo I. Curiosamente, assim como no livro, o papa João Paulo I queria rever alguns pontos considerados polêmicos dentro da Igreja na época como a inseminação artificial e todo o conservadorismo em relação aos avanços da ciência. Com certeza Dan Brown se inspirou em João Paulo I cuja a história se confude com a de Anjos e Demônios. Ele só faltou ter tido um filho como no livro. Entretanto o que chama mais atenção é o fato de João Paulo I realmente ter tomado remédios, o que abre claramente a suspeita de morte por envenenamento, assim como na história de Anjos e Demônios. Da mesma forma o papa João Paulo I foi encontrado, morto na cama com uma expressão de sofrimento. O diagnóstico da morte foi dado como sendo complicações na circulação, assim como no filme, onde o papa supostamente teria tido um derrame. Devido ao caráter misterioso da morte, o papa foi rapidamente velado e enterrado, sem passar pela autópsia devido às tradições, assim suscitando diversas teorias à respeito da sua morte que até hoje "é" um segredo.

Isto realmente é um bom motivo para Igreja tentar um boicote ao filme, afinal, ele ressuscitou um antigo mistério enterrado junto com João Paulo I. No filme, quem matou o papa foi o Camerlengo, o braço direito do papa. Ora, na época de João Paulo I o Camerlengo era Jean Marie Villot, um conservador que não concordava com as ideias progressistas do papa. Segundo algumas teorias, ele foi o responsável pela morte de João Paulo I porque era o único que tinha acesso irrestrito aos aposentos papa, podendo facilmente ter colocado veneno em seus remédios ou comidas. 60 anos depois a mesma história se repete em Anjos e Demônios. A própria tumba do papa no filme é semelhante a de João Paulo I, visto que a maioria dos papas estão enterrados em tumbas rasas como a de João Paulo II enquanto que João Paulo I foi enterrado sob um um túmulo-altar. Coincidência? Nem um pouco. Afinal, é de se esperar que num filme como Anjos e Demônios mensagens subliminares fossem colocadas de modo espetacular para que ninguém se esqueça que antes de ser uma instituição religiosa, o Vaticano é uma instituição política que vive de acordo com os interesses dos poderosos onde o papa nada mais é do que uma imagem, um ícone que serve de modelo para os católicos se manterem nas linhas traçadas pela Igreja, vide os poderosos cardeais, os políticos da Igreja que decidem como a sociedade será guiada no campo da moral.

Outro fato interessante no filme foi a presença histórica não só do Papa João Paulo I mas também do Papa João Paulo II que foi colocado no filme através da adaptação. No livro, os quatro cardeais são assassinados, e o Grande Eleitor, ou seja, o Cardeal que preside o Conclave é eleito papa. Entretanto no filme para a decepção dos fãs menos atentos, um dos cardeais é salvo, e justamente esse vira papa, o prefererido, o Cardeal Baggia. Mas porque isso? João Paulo II foi o papa eleito após a morte de João Paulo I. Na história do livro Baggia morre no último marco Illuminati, a Água. Contudo no filme o cardeal sobrevive a esse atentado e mais tarde é eleito papa. Em 1981 João Paulo II sobreviveu a um atentado numa praça! No caso do filme, o papa só é eleito após ao atentado, entretanto na cena final está clara a menção a João Paulo II devido à semelhança entre as imagens da proclamação João Paulo II como papa e a proclamação do novo papa no filme. Incrivelmente o filme coloca mínimos detalhes que se percebidos nos fazem voltar ao tempo e compreender melhor acontecimentos do passado. Eis a razão de Howard ter feito tais adaptações, consideradas altamente desnecessárias pelos fãs.

Outros detalhes que não foram deixados de lado, embora não importantes para a trama mas também parte da crítica feita à Igreja é a cena que mostra o interior do Banco do Vaticano, mais precisamente o arcevo de bens que o Vaticano possui, dentre carros luxuosos e escultulras milhonárias. A crítica à riqueza e ostentação da Igreja é feita sutilmente mostrando as falas contrastadas com imagens do local. Outros detalhes interessantes são os ritos realizados e a explanação de todo o cerimonial desde a morte do papa, o período da "Sede Vacante", isto é, o período entre a morte do papa e a eleição do novo, e principalmente o ritual do conclave onde mostra todo o processo de eleição minuciosamente. E como não poderia deixar de faltar, o filme mostra todas aquelas informações sobre o passado podre da Igreja, desde a razão de alguns fatos até os seus mais graves crimes, o que a torna nada mais que uma instituição criada por homens...

Enfim, a qualidade do filme Anjos e Demônios não se encontra nem no enredo nem nos efeitos especiais criados para essa obra prima da adaptação, mas no fato dela trazer a tona de modo discreto e ao mesmo tempo fantástico a história que não nos é revelada, afinal, onde há religião há política, e onde há política há poder, e quem detém o poder tem medo de perdê-lo. Assim nos são omitidos fatos da nossa realidade em que vivemos por meio de crenças ou valores estabelecidos pelos homens para que nossa sociedade seja guiada por um pastor considerado eleito por Deus, entretanto, um ser humano, assim como eu e você é imperfeito. Por isso devemos rever nossos valores sobre o que é posto para nós, pois antes de tudo a Igreja é criação do homem, e dentro deste mesmo homem habitam anjos e demônios.

7 comentários:

BirdBardo Blogger disse...

É bom revelar a verdade através da ficção, afinal nem todos podem assistir a um documentário da tv a cabo e se iluminarem. Engraçado como os lançamentos e notícias parecem estar interligados as conpirações sobre 2012. Meu caro atualizei o blog...

Acid disse...

Muito bom! Eu vi o filme nesse fim de semana, e não li o livro. Tava mesmo querendo saber os motivos pelos quais a Igreja mandou proibir os fiéis de ver o filme (o que só dá publicidade gratuita).

Ruâni disse...

Muito bom, adorei o filme. Pensei que era pelo caso de eu n ter lido, mas pelo o q eu tow vendo eh pq foi um filme de primeira linha msm.

Abração Shaka

mynynynha disse...

Eu vi o filme esse fim de semana,e concordo com tudo isso, pra quem leu o livro entende o que vc disse...
a maioria dos livros que depois sai o filme nunca conta a historia inteira e acaba pulando umas partes que tem no livro...

Shaka Kama-Hari disse...

Algumas considerações à acrescentar:

1 - Oficialmente os acusados pela morte de João Paulo I segundo a ala da Igreja que admite o assassinato do papa é a Maçonaria, uma Sociedade Secreta como na história, visto que o papa desconfiava de algumas negociações do Banco do Vaticano com a maçonaria (coisa que tomou proporções absurdas com o envolvimento com a máfia italiana nos anos 90. Vejam um tópico sobre o Banco do Vaticano que fiz), assim a Igreja utilizou a instituição como bode expiatório para justificar a morte, dizendo que era vingança contra o papa que denunciaria um segredo financeiro deles (o que envolvia a Igreja, mas como papa morreu "ninguém" foi capaz de saber). Da mesma forma na história, o Camerlengo se utiliza dos Illuminatis como bode expiatório para justificar a morte do papa que antes dita como uma morte natural, depois é revelada como sendo feita pela Sociedade Secreta. Entretanto quem realmente matou João Paulo I foi o Camerlengo (o real) como disse no texto visto as condições da época.

2 - Na época da Guerra Fria, justamente durante a morte de João Paulo I e o atentado contra João Paulo II surgiram rumores que a URSS jogaria uma bomba atômica no Vaticano devido à oposição da Igreja em relação ao comunismo soviético, afinal, segundo a mesma o atentado ao papa teria sido planejada pela URSS, mais uma vez utilizando-se de um bode expiatório para justificar uma disputa política (só lembrando que quem divulgava isso era a mídia americana em plena Guerra Fria). No história temos a antimatéria que não deixa de ser uma bomba atômica...

3 - Curioso que no final do filme o Camerlengo é aclamado como santo e depois de sua morte (que é divulgada como sendo complicações devido aos ferimentos) é canonizado. Ora, na história da Igreja temos vários exemplos de assassinos e até fraudes que viraram santos: "São" Luís de Montfort, tido como salvador da Igreja na Idade Média, matou todos os cristãos cátaros por pregarem uma doutrina diferente da Igreja. Hoje leva o nome do mais conservador instituto da Igreja: A Associação Montfort. Temos o atual caso de tentativa de canonização de Pio XII, que manteve a Igreja em silêncio durante o holocausto devido ao acordo do Tratado de Latrão firmado com Mussolini que criava o Estado do Vaticano, assim tornando o papa uma espécie de rei. E o caso mais grave: São Padre Pio. O santo que é tido como um estigmatizado foi alvo de uma polêmica onde descobriram que ele comprava secretamente várias caixas de ácidos que seriam usados para fazer e manter as feridas nas mãos e pés assim fazendo as pessoas acreditarem na sua santidade no milagre. Mais tarde ele se tornaria o santo mais famoso da Itália depois de São Francisco. Na história o Camerlengo vira santo mesmo fazendo tudo aquilo, afinal, as pessoas não sabiam da verdadeira história, visto que o próprio Vaticano acobertou todos os acontecimentos.

Infelizmente não publiquei esses outros detalhes porque primeiro nem tinha me antenado, e segundo porque o texto ficaria estrondosamente grande, aí não valeria à pena, mas deixo aí para refletirem.

Anônimo disse...

muito bom o que foi dito por voces faz pensar muito e ate me ajudou a entender o filme e nao só... muito obrigado

Anônimo disse...

MUITO BOM O FILME. NÃO LI O LIVRO. PRENDE VOCÊ DO COMEÇO AO FIM. O ATOR TOM HANKS NÃO É UM DOS MEUS PREFERIDOS. MAS TANTO NO FILME CÓDIGO DA VINCI E ANJOS DEMÔNIOS FOI IMPECÁVEL NA SUA ATUAÇÃO. OBRIGADO