No fim de 2010 uma série de protestos na Tunísia deu início à primeira revolução democrática nos países árabes e muçulmanos. Tal fato é um marco histórico, uma vez que desde a Revolução Iraniana de 1979, os países árabes mergulharam cada vez mais num regime governamental altamente conservador, gerando uma série de ditaduras agravadas ainda mais pelas invasões ocidentais ocorridas após o 11/09. Tal contraste social está gerando uma delicada situação onde ao mesmo tempo que tais países começam a reconstruir um modelo democrático baseado na atuação popular, os mesmos se veem ameaçados por uma interferência do mundo ocidental a recuperar toda a influência e controle social imposto antes da Revolução Islâmica, e pior, nos moldes pretendidos durante as guerras no Oriente Médio, estabelecidas pelos Estados Unidos, de modo a por em risco todo o conjunto das tradições seculares da cultura islâmica como um meio de "ocidentalizar" os países árabes.
Tais fatos que estão acontecendo devem ser entendidos primeiramente sob uma perspectiva histórica dos fatores que acarretaram todas essas revoluções até chegarem nos conflitos dos dias de hoje. Com a ascensão do Islã e a doutrina do profeta Mohammed o Oriente Médio viveu uma verdadeira Era de Ouro, onde apesar de toda a cultura Persa e Maniqueísta ter sido varrida dos territórios muçulmanos, a nova sociedade em ascensão promoveu uma verdadeira revolução cultural em todas as áreas da ciência, desde a Filosofia até a Matemática. Após a tomada de Constantinopla o Império Muçulmano se desenvolveu de forma que deixou a Europa Medieval anos luz no atraso. Com a expansão do Império, e seu crescimento econômico, cada região organizou uma sociedade específica por conta de suas culturas peculiares. Entretanto, com a maior interação das economias árabes com o mercado europeu cada vez mais, o desenvolvimento econômico foi falando mais alto que o desenvolvimento cultural, de modo que cada vez mais a miséria foi tomando conta dessas sociedades. Podemos dizer que os princípios do Liberalismo foram invadindo o mundo árabe aos poucos, e com isso as elites locais foram firmando terreno nessas sociedades, o que mais tarde gerou as monarquias árabes onde poucas famílias tinham controle do mercado local e a sociedade em geral era obrigada a trabalhar para sustentar a região.
Tal fato acarretou uma tentativa de mudanças, principalmente em países como o Império Otomano, hoje, a Turquia, e a região da Pérsia, hoje, o Irã. Curiosamente neste mesmo período de miséria e opressão, surgiu na Pérsia um movimento político-religioso ocorrido no séc. XIX. A Fé Babí que mais tarde culminou no surgimento da Fé Bahá'í, foi um movimento que antes de tudo, almejava uma reforma da cultura islâmica, tão prejudicada e desfigurada pela apropriação dos bens e dos meios de produção por parte das elites locais. O movimento assim como qualquer atentado contra a ordem estabelecida foi duramente reprimido pelo governo local. Por pregar uma nova interpretação do Islã, segundo uma abordagem altamente humanista e filosófica, o líder de tal seita islâmica, o "Báb", foi preso e executado pelo governo do Primeiro Ministro Mírza Taqí Khán. Entretanto, o principal discípulo do Báb, "Bahá'u'lláh", reorganizou a Fé Babí, sendo ele o novo líder da comunidade, com isso surgindo a Fé Bahá'í.
Tal movimento religioso islâmico que mais tarde se tornou uma religião independente pregava uma das questões mais cruciais para entendermos toda a lógica dos acontecimentos atuais que é justamente a Democracia Laica nos países árabes. Com a exploração econômica advinda do Imperialismo europeu, os países árabes tornaram-se verdadeiras minas para o Ocidente, onde cada vez mais as potências europeias da época lucravam com a exploração das matérias primas do oriente. Com isso, estreitou-se os laços entre o Ocidente e os países árabes. As famílias mais ricas desses países ficavam cada vez mais ricas enquanto que a população ficava mais pobre. Com isso, mais tarde, essas famílias assumiriam o poder nessas regiões. Entretanto, a grande aproximação dos países árabes com o Ocidente gerou um choque cultural onde cada vez mais a cultura árabe foi sendo mesclada com a cultura ocidental. No caso do Irã, de fato, a cultura muçulmana estava sendo trocada pela cultura americana, principalmente entre os jovens, afinal, todas as novidades "made in USA" eram mais interessantes que a tradição advinda dos tempos de Mohammed.
Assim como nos demais países árabes uma crescente onda de miséria, sendo consequência da intervenção americana e europeia em seus territórios, fez com que a população se visse realmente ameaçada pelo Ocidente, onde tal conflito existe desde os confrontos dos Cruzados com os Muçulmanos. Neste clima de instabilidade cultural e política, vários movimentos nacionalistas surgiram para reivindicarem a autonomia dos países árabes. Em face da invasão da cultura Ocidental na região, tal fato reacendeu a guerra cultural por motivos econômicos que existia desde a época das Cruzadas, e com isso, mais uma vez criou-se uma cultura de ódio ao diferente, onde o mundo árabe via o Ocidente como uma localidade sem regras morais ou limites culturais e políticos e a América e a Europa viam os muçulmanos com o mesmo olhar xenofóbico da época dos conflitos medievais. Para agravar o confronto, surgiu a questão Israel, onde o país recém criado na verdade era uma maneira do Ocidente manter suas bases políticas, econômicas e militares no Oriente Médio, com isso, levando a cabo a ideia de dominar as maiores fontes de petróleo na época, por curiosidade, o Irã, Iraque a região do Golfo Pérsico.
Não é atoa que em pouco tempo, os Estados Unidos, que antes apoiava determinados governos como o do Iraque para que com isso tivesse acesso à região petrolífera do Irã, onde tal interesse culminou na guera Irã x Iraque, mais tarde transformasse a mesma região num campo de batalha, devido à maiores interesses em países como o Kuwait e os próprios Emirados Árabes Unidos, onde mais uma vez a questão do petróleo dominou toda a rede de conflitos deflagrados na Guerra do Golfo. Como já cansei de falar aqui no blog, todos os conflitos posteriores após o 11/09 tiveram suas razões nas tentativas falhas do Ocidente (e falo aqui como EUA e Europa como um todo) de adentrar nos territórios árabes para terem acesso às ricas jazidas de petróleo e outras matérias primas que poderiam alimentar generosamente o mercado mundial. É possível traçar tal jogo de interesse desde ações imperialistas até a incrível façanha dos dias de hoje de desenvolver os países do Golfo Pérsico como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait, onde os mesmos são vistos como uma verdadeira porta de entrada do Ocidente para o Oriente Médio.
Tal jogo de interesses econômicos tem uma séria repercussão na cultura local, pois muda os costumes assim como a geografia política, e por fim, acabando ou desfigurando tradições milenares, seja a simples alimentação, passando pela cultura jovem, a organização política e principalmente, a religião. Por tal ameaça, visível desde época da Revolução Iraniana, é que os movimentos de independência locais se tornaram "conservadores", no sentido literal de manter a cultura vingente. Entretanto, isto criou uma cultura fechada ao diferente, impedindo um acesso por parte da população ao resto do mundo e com isso isolando o mundo árabe e muçulmano num caldeirão a ponto de explodir. Para controlar tal fato, os líderes se utilizaram o Islã como guia de tais sistemas sociais, onde ao mesmo tempo manteu-se intacta a tradição cultural islâmica, mas ao mesmo tempo criou-se um clima de xenofobia em relação ao Ocidente.
As revoluções e movimentos nacionalistas criaram de fato um Islã conservador aos olhos do Ocidente, e um Ocidente intocável aos olhos e mãos da cultura muçulmana. Com isso essa cultura de ódio tornou-se recíprocra, numa situação que cada vez mais se torna menos saudável à estabilidade da política internacional. Ao mesmo tempo que o mundo muçulmano tenta impedir uma ocidentalização do Oriente Médio e países árabes, o Ocidente tenta impedir a nova "Invasão Muçulmana", onde cada vez mais muçulmanos vão morar na Europa, o que cria mais uma "ameaça" à cultura europeia, neste caso, muito menos danosa do que a eminente ameaça ocidental à cultura islâmica.
No centro disto tudo está a questão do Islamismo enquanto um conjunto de práticas culturais que vão desde as ciências até a própria política. A utilização da Chária enquanto um princípio legal está por minar qualquer tentativa de democratização nos países em que ela ainda vinga. Da mesma forma como a palavra "democracia" assusta o mundo muçulmano, pois a mesma possui o caráter ocidental da palavra, remetendo às instituições Norte Americanas principalmente. Tal medo é o mesmo da "Invasão Ocidental" desde os tempos das Cruzadas. Entretanto é preciso ver que tal fechamento do mundo muçulmano à instituições universais é a principal barreira entre o diálogo do mundo ocidental com o mundo muçulmano. Falar em laicismo e democracia popular é o mesmo temor que o mundo cristão nos séculos XVIII e XIX viviam durante as revoluções iluministas e sociais naquela época. O temor da transformação cultural passa pela iminência do novo. Por falar em novo, uma novidade nesta onda de protestos é que há uma grande adesão dos jovens, que nos dias de hoje, estão conectados ao mundo como nunca estiveram, de modo que esta geração, possui este grande avanço em relação à geração da Revolução Iraniana. Tal acesso à informação, fez com que se formasse uma massa crítica fixada em gerar uma transformação baseada na autonomia e formação de uma identidade árabe plenamente original e democrática. A prova disto está justamente na rápida difusão dos acontecimentos que tiveram seu "boom" com a divulgação dos vídeos e dos relatos via internet. Não é atoa que estes protestos estão sendo denominados de "Revolução da Juventude".
A visão do Estado Laico na cultura muçulmana passa pelo temor da perda de poder por parte das instituições religiosas. E de fato, a questão dos líderes religiosos nos países muçulmanos é algo muito delicado, pois a velha ideia de que "aqueles que possuem o poder tem medo de perdê-lo" está plenamente aplicado neste contexto dos protestos no mundo árabe. Caso tais protestos culminem numa revolução social, toda a estrutura de poder baseada na organização política através dos imãns e líderes religiosos irá por água abaixo. Da mesma forma como foi preciso acabar com o sistema governamental baseado na intervenção estrangeira no governo dos países árabes, é preciso acabar com a intervenção dos líderes religiosos nos países muçulmanos. Tal "teocracia islâmica" possui as mesmas características dos sistemas políticos no final do século XVIII e XIX, onde a Igreja possuia uma grande influência nas instituições políticas dos países europeus, mandando e desmandando no Estado como um norteador dos princípios legais e políticos das regiões.
É preciso ter consciência que a organização social e legal dos países árabes deve ser regida não pela religião, mas pelos princípios básicos dos Direitos Fundamentais. Ao mesmo tempo, deve-se entender que a cultura islâmica está tão enraizada na sociedade árabe que será impossível separar os princípios morais de certos aspectos dos ordenamentos jurídicos locais, entretanto, tais princípios advindos do Islamismo não podem sobrepujar os princípios dos Direitos Humanos que devem reger qualquer ordenamento constitucional. Tal medo das instituições mais conservadoras na sociedade muçulmana foi o mesmo medo que a Igreja sentiu quando viu o Código Canônico sendo substituído pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. O laicismo do Estado não significará uma deturpação dos princípios do Islã, muito menos seu enfraquecimento dentro da sociedade muçulmana. Mas enquanto não houver essa separação do Estado e da religião, o mundo árabe ainda verá vários abusos dos Direitos Humanos em seus territórios.
Tais abusos como os que estamos vendo nos vídeos divulgados na imprensa internacional onde mais de 3000 pessoas já foram mortas pelos governos árabes em nome dessa tentativa de preservar as tradições milenares, frente à essa transformação social orquestrada pela população local. A utilização da força militar pelo governo como um meio de barrar a atuação popular é uma maneira que vista a intimidação social por meio da dominação. O medo paralisa o homem e da mesma forma o faz agir. Neste caso, a população vê-se cada vez mais incentivada a lutar por algo que nunca foi presenciado em sua história. A cada dia tal transformação social está se tornando uma verdadeira bola de neve, sendo expandida para os países vizinhos, de modo que será muito difícil impedir a derrubada de tais governos por parte de seus governantes. Pela primeira vez na história do mundo árabe a sociedade está tomando consciência dessa necessidade dessa emancipação Estatal. É preciso que as instituições do Estado sejam organizadas e guiadas segundo a vontade popular, onde tal vontade reflete a cultura vivida pelo povo. Caso tais fenômenos tenham sua finalidade alcançada, o que acontecerá no mundo árabe será uma verdadeira reforma política de suas instituições. Os reis serão derrubados, e seus governos ditatoriais serão trocados por constituições democráticas, e principalmente, laicas. Como o Islã faz parte da cultura local, seus princípios básicos não deixarão de estar presentes na nova organização social proposta, entretanto, serão firmadas bases sólidas assentadas nos princípios dos Direitos Fundamentais inerente à qualquer ser humano.
Caso seja vitoriosa, tal revolução fará uma mudança radical não só nas estruturas sociais dos países árabes, mas também nas relações deles com o Ocidente. Entretanto é preciso ficar alerta para o que está acontecendo ao mesmo tempo que o povo está tomando as praças. Com o mesmo interesse econômico advindo da época do Imperialismo, os EUA assim como a Europa veem nesta série de protestos uma oportunidade de fincar suas bases no mundo árabe para mais uma vez conseguir o controle de suas estratégicas minas de matéria prima em prol de um discurso de ordem e paz. Vale lembrar que os princípios de ordem social nada mais são do que uma justificativa de manter o "status quo" no poder, neste caso, segundo a vontade de quem tem o poder, hoje as forças militares vindas dos EUA e da Europa. Tal interferência político-militar é uma grave ameaça à construção de um governo popular nos países árabes, que podem se tornar de fato independentes moldando uma identidade própria, não mais baseada no conservadorismo destrutivo, mas numa verdadeira Democracia Popular Árabe. Entretanto, ao mesmo tempo, tal empreitada pode se tornar mais uma ocupação ocidental nas terras árabes com o simples intuito de exploração econômica dos recursos da região.
Cabe à população evitar que tal grito de independência se torne mais uma ver um fator de dependência do mundo árabe frente ao Ocidente, cujo neste jogo de interesses une as grandes empresas seja do lado do ocidente ou do mundo árabe. É preciso uma independência político, econômica e cultural, sem afetar as estruturas das tradições locais, mas também sem isolar a região como algo além do mundo, coisa que cada vez mais é o fator de conflitos entre as sociedades. Cada vez mais o homem vê essa necessidade de interação, mas é preciso definir a autonomia necessária a cada sociedade para que a mesma se desenvolva com os próprios pés e não se torne um hospedeiro para países parasitas da cultura alheia.


2 Reflexões:
Quando imaginávamos que a revolução civil estava morta e vivíamos tempos de total obediência, os arábes(justo eles!) se reúnem e pedem valores ocidentais. Eu não esperava viver pra ver isso...
Como falei no texto, meu único medo é dessa interferência da Europa e dos EUA, principalmente da França com Sarkozy. Isso tá com cara de um neo-imperialismo, ainda mais depois dessa crise no Japão...
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