sexta-feira, 8 de abril de 2011

Realengo, Tropa de Elite, Ônibus 174


Há dois dias atrás eu postei um texto intitulado "A noite escura da alma". Curiosamente esse texto trata de um problema muito comum à mente das pessoas que é ficarem se lamentando e se perguntando do por quê de seus problemas e dos problemas do mundo, como se isso fosse uma pergunta cuja resposta seria o simples fato de Deus ou qualquer fenômeno superior ou sobrenatural pudesse explicá-los ou pelo menos justificá-los enquanto fruto da nossa ignorância. Com tais perguntas parece que nós exorcizamos o sentimento de pesar que paira em nós, nos confortando com uma resposta positiva em relação à vida e seus problemas. Essas semanas estive cheio de atividades, inclusive estou nos tempos da Kali Yuga, em outras palavras, semana de provas da faculdade. Infelizmente não tive tempo de postar nada desde meu último texto sobre os vários problemas sociais no país. E quando menos espero, ontem me acordo com a notícia do massacre na escola do Realengo no Rio de Janeiro.

Parece que esse último texto do blog caiu como uma luva para o que aconteceu e o que vou escrever em seguida. Ontem tirei o dia para finalmente assistir os filmes Tropa de Elite 2 e Última Parada 174, que conta a história do famoso sequestro do ônibus no Rio de Janeiro que terminou numa tragédia. O que mais me chamou atenção nesses dois filmes é justamente a análise social por trás de fatos que envolvem a mentalidade comum da nossa querida sociedade brasileira. O que aconteceu no Rio ontem, assim como no caso do Ônibus 174 foram verdadeiras tragédias, no qual uma pessoa perturbada agiu violentamente para com um determinado grupo social. Por mais que o sentimento inicial seja de revolta, é preciso entender o contexto geral de todos esses fatos que rondam nosso dia a dia. A análise no filme Última Parada 174 nos revela claramente todo o traço psicológico e histórico do personagem principal, Sandro Barbosa do Nascimento, nos explicando todas as razões de seus atos. Da mesma forma, ontem, o atirador Wellington Menezes de Oliveira, nos deixou uma "carta suicida" como prova de seu passado de modo que podemos compreender seus atos. Disponibilizo a carta na imagem deste texto. Leiam após terem lido o texto por completo.

Antes de nos afundarmos em nossa ignorância e condenarmos a pessoa simplesmente por seus atos, precisamos compreender suas verdadeiras razões por trás daqueles atos. Nos dois casos, fica claro que ambos estavam em uma desordem psicológica o que os levou a cometerem tais atos. É interessante notarmos que no filme, o personagem Sandro tem um passado marcado pela violência: viveu em um meio sem expectativas futuras, viu sua mãe ser morta quando jovem, cresceu no meio do tráfico, e presenciou a morte de seus amigos no episódio da Chacina da Candelária. Juntando tudo isso a problemas futuros que ele enfrentaria, o mesmo explodiu em um acesso de fúria canalizando todo seu ódio para o sequestro do ônibus e seu trágico desfecho. É interessante que muitas pessoas diziam que os atentados que ocorrem nas escolas americanas e do mundo afora jamais aconteceriam no Brasil. Mas aconteceu. A única explicação para esse fenômeno no país é o mesmo para todos os outros massacres ocorridos ao longo da história. Segundo psicólogos, Wellington Menezes provavelmente sofreu bullying na escola onde estudou, o que mais que justifica o fato dele ter invadido sua ex-escola para atirar nas crianças, "justificando" o fato de que elas eram consideradas "impuras" pelo atirador. Está mais que claro a relação desse ato violento ser canalizado em um determinado grupo social, neste caso, crianças, na escola onde o atirador estudou.

Além disso, o atirador em sua carta, cita várias vezes a palavra impureza, sangue, e afins, o que indica que o mesmo era portador do vírus HIV. Sem falar que o mesmo era filho adotivo, cuja mãe morreu quando era jovem, pois o mesmo pede para ser enterrado junto à mãe. Some-se tudo isso à tortura psicológica sofrida quando ele era jovem, o que para uma mente já transtornada, vai se adicionando cada uma dessas agressões até chegar a um ponto onde a pessoa perde seu equilíbrio e passa a justamente contra-atacar na mesma moeda em relação ao grupo que o atacava. Tal inversão psicológica é mostrada no filme "The Wall" do Pink Floyd, onde antes, o personagem Pink, atormentado por seus problemas, passa a dominá-los através da violência, criando um mundo particular, onde ele se sente o ditador, embora esteja fechado entre as paredes dos seus problemas. No caso do filme, o personagem consegue se libertar de seu passado. Já nesses dois casos, os protagonistas estando em um estado cuja conclusão do fato só se dará através da morte, como se ele participasse de uma peça de teatro e a apoteose fosse justamente a sua redenção, eles vão até o fim com seus ideais, de modo que nada poderá pará-los. Como no caso de Columbine, nem Sandro, nem Wellington parariam, uma vez que eles tinham projetado em suas mentes apenas as suas mortes como solução final do fato. E justamente por isso somente parariam enquanto estivessem mortos.

No filme Tropa de Elite 2, no começo, o capitão Nascimento diz que "a guerra é uma válvula de escape". A guerra aí está para o sentido de violência. A violência de fato é uma válvula de escape para os problemas pessoais e sociais. Para o filósofo francês Michel Foucault, estamos constantemente envolvidos em mecanismos de dominação, onde nos alternamos entre o dominador e o dominado. No caso de pessoas com disturbios psicológicos, elas vivem por muito tempo em microssistemas de dominação, sendo humilhadas, sofrendo caladas, apenas absorvendo os fatos vividos por elas, até que chega um momento onde ocorre uma explosão de revolta, advinda de uma depressão emocional forte. Isso acarreta os famosos descontroles que podem ser apenas uma crise de histeria, como no caso dos pais inconformados pela morte de seus filhos, ou no próprio ato do atirador em se "vingar" daqueles "personagens" que o atormentaram quando ele era criança.

Entretanto, no meio disso tudo, existem dois problemas cruciais que determinam o desfecho de tais histórias: A mídia e a sociedade. Uma coisa que o filme Tropa de Elite 2 mostra muito bem é a lógica do sistema enquanto dependente dele mesmo para funcionar. A questão da violência e do próprio desarmamento está vindo à tona mais uma vez. Em entrevista para a imprensa, o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, disse que o massacre deve reascender o debate sobre o desarmamento. Fatos como esse geram uma comoção pública de uma maneira perigosa. A população em face desse impacto emocional, fica vulnerável a discursos maquiavélicos elaborados com a única função de introduzir tal pensamento na sociedade para com isso perpertuar a lógica do sistema. Não me impressiona que em casos como o do Ônibus 174 ou esse massacre, a população volte a defender absurdos como Pena de Morte ou Armamento. Tal comportamento de desejo de vingança reflete a ignorância jurídica e social que a população brasileira possui, mais precisamente da classe média.

É incrível como ao mesmo tempo que a mídia promove a violência policial como solução absoluta contra a violência, a população bebe dessa fonte de informação e ao mesmo tempo cobra para que essa onda de violência se perpertue. É como que se com a morte do bandido a violência tivesse acabado. Por meio desses fenômenos imediatos, a sociedade cria uma imagem de uma história que teve início, meio e fim com a morte do criminoso. Mas todos sabemos que essa história está longe de ter um fim. A violência é um fenômeno típico das relações humanas. Entretanto, tal fenômeno é fruto de um problema social. O que não pode ocorrer é uma perpetuação dessas práticas através de um culto à violência por meio da população. Uma cena que retrata muito bem o sentimento atual da população brasileira é quando o Capitão Nascimento entra em um restaurante um dia após ter acabado com uma rebelião em Bangu 1. Mesmo tento realizado um massacre no presídio, os cidadãos presentes no restaurante o recebem como um heroi. Nascimento representa o Estado, que simboliza todo o conjunto de violência imposta à população, que ao mesmo tempo que protege, agride a sociedade com sua coação por meio da polícia, do Direito e de suas instituições. A reação dos presentes no restaurante é a mesma reação alienada da população que acha que com a violência do Estado, com a morte do criminoso, a sociedade está protegida para sempre.

Por fazer parte da maior massa "crítica" da sociedade, é que temos com a perpetuação desse tipo de pensamento a chamada "classe merda". Seus protagonistas são os chamados "cidadãos de bem". Aquele típico cidadão defensor da moral e dos bons costumes, que não tem uma mínima noção do que é Direito. Que se brincar nunca abriu a Constituição para saber que a pena de morte é algo inconstitucional e que nunca poderá ser implantada no país, mas mesmo assim vota em político que a defende, pois acredita que bandido bom é bandido morto. Sua noção de Direitos Humanos é que os mesmos servem para defender criminoso. É aquele tipo de cidadão que possui uma opinião massificada, vítima do sistema mostrado em Tropa de Elite 2, onde a mídia junto com a política se juntam num verdadeiro crime organizado, onde por meio da formação leviana da opinião das massas, através de um discurso agradável de proteção social, conquista boa parte da população para que elas apoiem tal sistema corrompido.

Tal discursão sobre o desarmamento ou pena de morte apenas tem por fundamento um discusso demagogo que busca desviar a atenção da verdadeira função do Estado que é criar políticas públicas concretas de combate à violência e não soluções imediatistas que em nada impedirão que existam outros Sandros sequestrando ônibus ou Wellingtons invadindo escolas. Estado tem que garantir a segurança nas escolas públicas, visto a vulnerabilidade de tais instituições frente ao crime. Da mesma forma o Governo deve buscar políticas públicas que combatam o bullying nas escolas, prática ainda muito presente nas escolas brasileiras, e que foi o maior propulsor dos atos de Wellington. Da mesma forma é preciso que a mídia mude seu modo sensacionalista de cobrir os casos, pois transformam um fenônomeno social em um verdadeiro fato histórico. Nas próximas semanas veremos toda a lógica inversa mostrada em Tropa de Elite 2, onde esses programas policiais ao elogiarem e apoiarem tais atos de repressão por parte do Estado, apenas o estão apoiando o Governo atual como uma tática publicitariamente politiqueira.

E tal cobertura da mídia vai explorar os mínimos detalhes, deturpando os fatos de um modo absurdo. Não que seja a intenção, mas as projeções sociais farão com que o próprio atirador se torne um mártir. Já estão correndo rumores nas mídias que Wellington era muçulmano em face de seu culto à violência militarista misturando com uma espiritualidade rendentora! Em primeiro lugar, ele era Testemunha de Jeová, uma vez que pela linguagem da carta, a crença no perdão de Jesus assim como a concepção de impureza exclui a possibilidade dele ter alguma ligação com o Islã. E em segundo lugar, nenhuma religião não tem nenhum fundamento nas razões de seus ataques. Seus atos foram frutos de seus distúbios causados em sua infância por meio do bullying sofrido naquela escola. É incrível como a mídia criou uma imagem preconceituosa ligando automaticamento o Islã com a violência causada pelos grupos políticos do Oriente Médio. Com isso, também consegue desviar as verdadeiras razões do ataque para bodes expiatórios. No fim das contas, Wellington se tornará mais um assassino cuja a sociedade se livrou por meio de sua morte. O debate sobre a pena de morte e o desarmamento tomará conta dos diálogos da população, alimentado por opiniões massificadas repetidas diariamente nos programas policiais. E a mídia explorará tal fato até a última gota, ou até que aconteça outro fato tão trágico quanto este.

É preciso que a sociedade busque analisar os fatos ocorridos, não por meio do clima de emoção e revolta instaurados pelo caso, mas compreendo principalmente as razões pelas quais ele cometeu tal crime. O que não podemos fazer é ainda legitimarmos a violência do Estado como um meio eficaz de combater o crime e a violência social. Devemos ter noção que Direitos Humanos não é para proteger bandido, mas para garantir a integridade de todos os seres humanos, criminosos ou não. Por isso não se pode ter pena de morte, pois é dever do Estado garantir o direito fundamental de todos, o direito à vida. Não será com pena de morte ou armando a população que o Estado vai garantir a segurança de todos. Apenas com políticas públicas sérias que será possível combater a violência. Mas tal política não deve ser isolada. O combate à violência passa desde a ação policial até a conscientização educacional para com a população, assim como por meio da assistência social e psicológica que garanta a estabilidade emocional do indivíduo. Mas como diria o filme Tropa de Elite 2, "enquanto as condições do sistema estiverem aí, ele vai resistir". Nenhum problema social está isolado. Tudo é parte de um imenso jogo de interesses que indiretamente repercutem nas várias esferas sociais, desde as classes altas, passando pela classe média, até a classe baixa. Na cena final do filme, Nascimento diz que entra governo e sai governo e os mesmos problemas continuam. O sistema é muito maior do que pensamos. Não é atoa que os traficantes e policiais matam tanto nas favelas. Não é atoa que existam ainda favelas. Para mudar as coisas vai demorar muito. E enquanto não mudar, ainda vai morrer muito inocente.

2 Reflexões:

Deise Figueiredo disse...

Gostei muito do seu texto. Expressa exatamente o que penso. Não adianta execrar as pessoas doentes, o Estado tem é que cuidar da sociedade como um todo. Parabéns.

BirdBardo Blogger disse...

Impressionado como esse texto deu uma aula de interpretação factual do ocorrido em Realengo. Eu que moro no RJ e vejo isso de perto estou enojado dos acontecimentos...