sexta-feira, 20 de maio de 2011

A crise da cultura educacional


Como já falei aqui no blog em outros textos, o Brasil está vivendo uma séria crise cultural. Já frizei várias vezes a questão da produção musical no país como umas das causas dessa alienação da juventude. Mas essa semana durante uma reunião com os professores do curso de Direito da minha universidade vi que tal crise se alastra de uma forma tão grande que chega à própria vida universitária. Os jovens que nessa idade deveriam atingir o grau máximo da busca pelo conhecimento estão se tornando cada vez mais acomodados. Tal fato está gerando uma crise dentro das próprias universidades onde cada vez mais os estudantes estão se desinteressando pelo próprio curso e pelos estudos. No caso de Direito, tal problema possui uma série de fatores que vão desde a metodologia do curso até a própria formação da personalidade dos estudantes, que cada vez mais estão se tornando vítimas da grande mídia. Quando falo de cultura e da mídia, aponto para a chamada indústria cultural, que cada vez mais absorvemos de uma maneira tão imperceptível que estamos nos tornando cegos para o mundo ao nosso redor, prejudicando cada vez mais nossos senso crítico e formação de opinião própria, e como consequência gera a chamada anestesia política, cada vez mais presente entre os jovens.

Uma coisa que tenho notado, é que cada vez mais a juventude está mais desinteressada em compreender o mundo em que vivemos. Educação virou sinônimo de aprender o assunto dado em sala de aula. E só. Não buscamos mais o aprendizado além do que o professor nos ensina em sala de aula. É tanto que a procura por programas de extensões, monitoria e pesquisa vem diminuindo gradativamente. A Universidade está perdendo espaço enquanto agente de produção científica para se tornar um templo da mercadoria educacional. Principalmente as universidades privadas viraram reféns das perspectivas mercadológicas. No curso de Direito por exemplo, está havendo uma desvalorização da produção científica como um todo, para focar nas procuras do mercado pelos técnicos em Direito. A formação do curso não está destinada a tornar os futuros bachareis em administradores públicos, em juízes, promotores ou advogados que compreendam os fenômenos que estão acontecendo na sociedade, mas em meros operadores do Direito (expressão hoje em dia divulgada enquanto uma automação do advogado enquanto mero aplicador da Lei), que estão sendo formados para suprir a demanda do mercado jurídico. Nas Universidades agora, o curso voltou-se totalmente para o Direito Privado, para o Direito das Empresas, o Direito das relações de contrato, o Direito Penal que apenas pune.

Não há mais o diálogo e a construção da Teoria do Direito enquanto uma reflexão dos problemas sociais. O Direito Constitucional, Filosofia do Direito, Sociologia Jurídica, hoje são matérias que perderam espaço gradativamente, seja na diminuição do currículo da matéria dos Direitos Fundamentais, que são vistos em poucas semanas, ou na própria abordagem da Teoria do Direito enquanto uma construção pautada no velho Positivismo Jurídico, onde hoje em dia é cultuado como a estrutura oficial do Direito no Brasil, onde a Lei deve ser observada e aplicada enquanto lei. Não se pensa mais os problemas da sociedade. Os alunos viraram meros repetidores do conhecimento dado em sala aula, fruto do currículo direcionado pelas perpectivas do mercado. Lamentavelmente, agora, a Universidade está perdendo espaço para os cursinhos, pois em nome dessa onda de "necessidade" por empregos estáveis, há um inchaço no curso de Direito, criando várias faculdades sem um mínimo de comprometimento para a formação do estudante. Apenas um meio de formar bachareis para realizarem seus sonhos de um bom emprego com salários gordos enquanto que a faculdade enche os cofres com o dinheiro desses mesmos estudantes.

No país está havendo uma mercantilização do ensino como um todo. O ensino está sendo privatizado. Você paga para estudar, para conseguir um bom emprego e com isso um bom salário. No país, universidade privada é sinal de boa estrutura, logo ensino de qualidade. Não é atoa o bombardeamento da mídia em relação à defasagem da estrutura das universidades públicas. Há um interesse das empresas em direcionar a classe estudantil a estudarem nessas instituições privadas, pois ao mesmo tempo, são essas empresas que investem nessas universidades com suas altas mensalidades, pois terão um retorno garantido, ao contrário das universidades públicas. Da mesma forma, essa onda de cursinhos e congressos, é um mero reflexo dessa privatização do ensino. Os estudantes gostam da grandeza. Tal fenônemo é a projeção que almejam futuramente de serem alguém. O ensino não é mais um diálogo para formação do conhecimento entre o estudante e o professor, mas agora o despejo do "saber" dos grandes "mestres" que dão ao ser "sem luz" (aluno), o conhecimento. Com isso temos os grandes congressos em formato talk show onde os grandes nomes de tais áreas, como Direito, onde vão os grandes ministros e desembargadores, se mostrarem ao público, que os admiram por tal status. Eles falam, os demais escutam, e na semana que vem ninguém se lembra mais do que aprenderam. Há um grande negócio por trás de tais congressos e cursinhos, não é atoa que a maioria dessas empresas que organizam são ligadas a grandes universidades privadas.

Enquanto isso o estudante está contribuindo cada vez mais para essa perpertuação da ignorância, onde todos fingem que aprendem, os professores fingem que ensinam, e no fim do curso, todos recebem seu canudo como a prova de que adquiriam conhecimento. Mas esse conhecimento servirá à quem ou para quê? A prova de tal perspectiva mercadológica é o inchaço de várias áreas como no caso de Direito, saturado de alunos de porta de sala de aula, que estão nem aí para uma verdadeira formação profissional, somente atrás de um canudo para serem "alguém na vida". Hoje em dia não há a valorização do educação do país, e tal parcela de culpa também cabe aos estudantes. A juventude hoje não está mais dando valor ao conhecimento. Tal fato também é fruto da falta de cultura do jovem na sociedade de hoje. Cada vez mais nos tornamos imbecis. Buda diz que somos o que pensamos. Para mim somos o que pensamos, ouvimos, consumimos, cantamos, bebemos, comemos, enfim, o que fazemos de nossas vidas. E sinceramente, cada vez mais a juventude está se tornando estúpida. Estúpida porque estamos perdendo uma oportunidade única de vivermos intensamente tal fase que nunca mais voltará.

Eu por exemplo, considero minha formação completa, estudo e faço monitoria na universidade, tenho conhecimento de mundo, toco um instrumento, ouço música, tenho meus perfis de rede sociais, tenho o blog, participo do Movimento Estudantil, saio com meus amigos para festas, organizo outras, e só por isso não sou careta. Entretanto tenho consciência de um dever que possuo enquanto jovem de valorizar minha própria formação pessoal. Eu vejo a responsabilidade que tenho comigo mesmo de fazer tudo isso pois julgo mais que necessário para ter minha formação profissional mais que completa. Vivo cada uma dessas experiências de modo intenso, pois sei que isso fará totalmente a diferença futuramente. Entretanto olho para a maioria dos meus amigos e os próprios estudantes lá no curso e na universidade o que vejo é pura ignorância. Ignorância no sentido lato, pois ao mesmo tempo que eles não buscam aprimorar a própria formação pessoal, são vítimas desse sistema de formação da personalidade do indivíduo. Hoje em dia não é o jovem que forma sua personalidade, mas a mídia. É incrível como está havendo uma nivelação por baixo da personalidade do jovem. O que temos hoje em dia é o universitário sertanejo baladeiro que tá nem aí para o curso, para apenas se formar e ganhar dinheiro para curtir sua balada no fim de semana.

Nunca se necessitou tanto de uma transmutação de valores da juventude. A falta de cultura no meio jovem é drástica. É lamentável a que em uma fase tão áurea da vida, a juventude se perca em sua formação enquanto indivíduo. A formação profissional não é somente fruto dos estudos em sala de aula. Isso é apenas a metade. A outra metade é composta da formação cultural do indivíduo. O que ele entende por música, por arte, por cultura em geral, assim como sua consciência crítica em relação aos acontecimentos sociais. O nível da "cultura jovem contemporânea" está cada vez mais refém das próprias perspectivas do mercado cultural como já coloquei no blog. Hoje em dias as baladas só tocam o que a mídia promove como a nova onda do Sertanejo, Swingueira e o novo estilo brasileiro jovem de viver. Num misto de playboys e patricinhas que vão para a balada no fim de semana beber, dançar música sertaneja e depois música eletrônica, estamos criando uma verdadeira cultura de culto ao fútil e ao inútil. Não há mais uma perspectiva além das oferecidas pelo mercado. Tal nível de imbecilidade pode ser percebido pelas relações mostradas nas redes sociais. E isso reflete diretamente na educação.

Chegando aonde eu queria, tal culto à nova cultura jovem está tornando o estudante cada vez mais alienado cuja razão de ir para a faculdade é chegar com seu carro tocando a música do momento para fazer a social com os amigos e mais tarde irem para a balada. É claro, há também a ideia de que se você estudou, passou por média e concluiu seu curso você está com seu "dever acadêmico" cumprido. A própria juventude criou essa ideia de responsabilidade estudantil como um mero meio de cumprirem seus deveres básicos. Entretanto nos esquecemos que a formação vai muito além da matéria vista em sala de aula, pois a educação universitária é composta pelo chamado "tripé", ensino, pesquisa, e extensão. Tais atividades, que podem ir desde um grupo de estudo, diretório acadêmico ou até a própria pesquisa propriamente é o que determina a qualidade do ensino na universidade. Entretanto ao mesmo tempo que tais perspectivas de mercado abafam estes meios de produção científica, os estudantes, reflexos de tais perspectivas, alimentadas juntamente com essa indústria cultural, estão por desvalorizar tais atividades, e como consequência desqualificando cada vez mais o ensino no país.

Uma coisa que deve ficar bem claro é que tal mudança metodológica no ensino e na educação como um todo, também passa pela ação coletiva dos estudantes. Entretanto tal formação cultural dos mesmos está por minar as possibilidades de mudanças nessas estruturas do ensino. Tal falta de cultura gera uma verdadeira anestesia política. Podem notar que a maioria dos estudantes que realizam tais atividades são justamente aqueles com um mínimo de consciência política, no sentido lato, de compreenderem a importância de tais atividades. Da mesma forma como tais estudantes muitas vezes também fazem parte do próprio movimento estudantil, que em regra, tem a missão de buscar melhorias no ensino do país. Entretanto esse mesmo movimento estudantil é maculado pela mídia e pela consciência coletiva dos estudantes como um sistema corrompido e inutilizado para seus fins, de modo que com tal visão, torna-se impossível mover um só dedo para mudar qualquer coisa dentro desse mar de lama em que a educação no país se encontra. É incrível como falta um senso de união coletiva entre os estudantes. E não é a união política ideológica que estou falando, mas o mesmo senso de responsabilidade acadêmica que falei anteriormente, pois a massa estudantil está condicionada pela mídia a apenas consumir o que ela produz. Logo, o estudante vira um mero consumista também da educação, ao invés de lutar por melhorias na mesma.

Isso gera as graves crises de meio de semestre onde ao longo do período os estudantes deixam de ir para as aulas, estão nem aí mais para as provas, e quem dirá para o ensino como um todo. Se no começo do curso eles só querem saber de festas e de passar de período, quanto mais no fim do curso que eles só estarão interessados em se formar para conseguirem o mais rápido possível um emprego. Formou-se uma imagem na cabeça dos estudantes que a universidade é apenas um meio de passar em concursos, e estes por vez, um meio de se garantir um bom emprego. Tal mentalidade imbecil é cada vez mais alimentada na mídia por esse estilo "fácil e feliz" de se viver. Até que se mude tal tipo de pensamento social, a educação no país estará entregue às moscas. Os estudantes precisam entender tal responsabilidades deles na própria formação e na formação dos futuros estudantes que entrarão nas faculdades. O ENEM foi um grande avanço na reforma educacional no país, da mesma forma como a reforma da educação básica com o tempo integral será algo que fará toda diferença no futuro. Mas pouco se fala em uma reforma do ensino superior concreta, e isso inclui sua relação com o ensino básico. O tempo integral nas universidades é o que faz toda a diferença nas universidades da Europa e dos EUA. Embora a realidade do Brasil seja outra, tais questões da reforma da cultura educacional no país devem ser consideradas, da mesma forma como a questão da função cultural da mídia, que cada vez mais imbeciliza a sociedade a classe estudantil no país.

O país precisa de uma reforma cultural drástica, antes que nossa educação seja destruída pelos próprios estudantes, que cada vez mais estão descomprometidos com a própria formação pessoal, quanto mais para se tornarem profissionais que possam transformar a realidade social em que vivemos. Hoje em dia a juventude se anestesia politicamente através desse consumismo cultural, entretanto, os problemas que ela enfrenta hoje em dia é fruto dessa mesma falta de cultura promovida por ela. Se a juventude não mudar e buscar repensar seu modo de se vestir, ouvir música, consumir, sair com os amigos e até mesmo estudar, iremos entrar numa grave crise social que vai desde a própria educação até o mercado de trabalho, gerando um verdadeiro país de tolos, onde entraremos numa ditadura da mídia e dos interesses privados.

3 Reflexões:

Aum de Abreu disse...

Bom texto, Rafa. Discordo de alguns pontos mas prefiro escusa-los literalmente. E quanto ao ponto da causa (ou causas) da educação deficiente, é justamente a falta de educação eficiente. Nao existe educação, existe adução de informação, o Prf. aprendeu a ler pensamentos, e não a pensar, como diria Kant. Entao nao temos ao nosso alcance na escola um mestre que nos ensine a aprender porque justamente nao aprendeu a pensar sobre no assunto e portanto a sua inteligência nao consegue inteligir o que mesmo leu e aprendeu a reproduzir. Para entender o quao ineficáz o método de assimilar é para a educação, basta analisar um papagaio, que aprendeu a repetir o que ele sequer entende o significado, pois, alem de nao ter inteligência para inteligir, nao foi treinado para pensar. Pensar é uma coisa. Inteligir (usar a inteligência para entender a verdade) é outra. Portanto, afiro sobre o assunto que a Educação precisa ser restabelecida com ordem didática e disciplinar científica, começando pelo extermínio de professores mal sucedidos ou na reciclagem daqueles que merecem (e nao só querem) a oportunidade.

BirdBardo Blogger disse...

Shaka disse o q sinto neste momento em relação ao curso de Direito, mas ainda há salvação, pois alguns alunos são exceção. Eu garanti minha bolsa e dou um duro danado para trabalhar, estudar e não surtar.
O conhecimento é um bem que adquirimos e torna-se um direito fundamental por ser inalienável, irrevogável e imprescrítivel.
Isso me lembra justamente nesta aula quando citei ao professor o Direito de Resistência de se voltar contra o Estado e ele me respondeu:
"Tem certeza de que está no curso certo?"

Anônimo disse...

Muito bom. Tenho 22 anos, curso Direito e me identifiquei com sua forma de pensar. Infelizmente a realidade é bem essa, olho para os meus colegas de turma e a maioria age da forma descrita por vc. Vejo muitos colando na hora das provas, outros dizendo que bobo é quem não cola. Uma amiga me disse isso e eu disse a ela, e na prova da oab, como vão colar? Ela respondeu dizendo que qd for fazer o exame da ordem, que ela fará cursinho. Mas se ela não consegue aprender (pq não estuda) agora que está cursando o curso de Direito, o que a faz pensar que num cursinho será diferente? Lamentável.